AXÉVIER

Por Bruno Gaudêncio

 

Arnaldo França Xavier nasceu no bairro de Santo Antonio, na cidade de Campina Grande, interior da Paraíba, no dia 19 de novembro de 1948. Ainda jovem, começou a conviver no meio artístico campinense. Com menos de vinte anos iniciou a atividade cineclubista enquanto membro do Cineclube Glauber Rocha, tendo como companheiros nomes destacados a exemplo de Antonio Moraes de Carvalho, José Neumanne Pinto, Regina Coeli, José Souto, Agnaldo Almeida e Aderaldo Tavares, – em sua maioria, figuras representativas do meio artístico e literário paraibano nas décadas finais do século XX.

No cineclube, a partir de 1967 teve contanto com as principais vanguardas cinematográficas mundiais e brasileiras, aprofundando assim uma leitura crítica e marxista da realidade, bem como ensaiando já neste período suas primeiras produções poéticas. Poucos anos depois, de Campina Grande migrou para São Paulo, cidade que jamais abandonaria e pela qual nutriu grande paixão até o fim de sua vida em 2004.

Habituado desde adolescente a participar ativamente na formação de círculos intelectuais em Campina Grande, o poeta paraibano em pouco tempo se tornou assíduo comparte também das sociabilidades literárias e artísticas da capital paulista, inicialmente no CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes), na qual estreou na poesia com 25 anos, na série Violão de Rua, publicada no início da década de 1970. Na época este centro direcionava muito das atividades artísticas da juventude brasileira, principalmente na tentativa de expor as características culturais do povo brasileiro em uma visão de crítica social demarcada pelos postulados ideológicos marxistas, através das mais diferentes linguagens como o cinema, a literatura, o teatro, a música, etc.

Da experiência com o Cineclube em Campina Grande e do CPC em São Paulo, Arnaldo Xavier acabou acumulando um capital cultural necessário para pouco a pouco empreender veredas literárias mais consistentes, o que pode ser demonstrado pelo fato de ter sido um dos fundadores de um grupo artístico e literário, chamado de Núcleo Pindaíba, uma coligação de escritores undergrounds paulistana.

De caráter corporativo, o Núcleo foi se estruturando ao longo de 1970 e passou a atuar de forma eficaz na capital paulista nas décadas subseqüentes. Este grupo tornou-se um dos principais núcleos literários marginais do país na época da ditadura militar no Brasil, que além da publicação (principalmente de mão em mão, em bares e teatros), também promovia recitais/debates em escolas, faculdades e outros lugares públicos. Em 1976, com o propósito de possibilitar uma maior produção editorial dos seus livros e dos jovens amigos, Arnaldo Xavier fundou as Edições Pyndahíba, contando com a participação de Aristides Klafke, Souza Lopes e Ulisses Tavares.

É necessário lembrarmos que na década de 1970, tivemos o fenômeno conhecido como Poesia Marginal, marcado pela coletividade literária, e no contexto de extrema censura á liberdade de pensamento, á criação artística e a organização política no Brasil, através da ditadura militar. Os jovens na época, responsáveis por boa parte das manifestações culturais e artísticas, não estavam dispostos a compactuar com este cerceamento das liberdades individuais, denunciando a dubiedade do discurso burguês, considerado sério, oficial e que não mais convencia ninguém. Do mesmo modo, instituições de poder, como a escola, a família, a igreja não ficaram imunes a esta crise de consciência. Nisto, observamos pelo mundo a fora, o surgimento de soluções alternativas de existência, enquanto resistência a massificação do indivíduo, profundamente inspiradas nos movimentos contraculturais da Europa e Estados Unidos. (PEREIRA, 1981).

Profundamente atualizado com estas questões contraculturais, Arnaldo Xavier e seu Núcleo Pindaiba, constituído inicialmente por ele e Aristides Klafke, Souza Lopes e Ulisses Tavares, acabou conquistando em pouco tempo um lugar especial no campo de produção literário paulistano, a marca disso foram os componentes que ao longo das décadas de 1970 e 1980 arregimentaram-se ao movimento, como por exemplo, os artistas Marco Rheis, Roniwalter Jatobá, Eduardo Miranda, entre outros jovens, bastante engajados nas diversas áreas dos campos culturais da cidade de São Paulo, em produções artísticas ligadas ao jornalismo, à literatura, a música e no cinema.

Durante a sua atividade, diríamos marginal, de poeta e editor através do Núcleo, Arnaldo Xavier, que criou uma abreviação para designa o seu nome Axévier, publicou juntamente com os outros membros da equipe editorial da Pyndahíba, antologias poéticas coletivas, a exemplo dos livros: Pablo (1974), parceria com Aristides Klafke, além de Cara a cara (1977) e Contramão (1979), conjuntamente com boa parte dos membros do Núcleo.

De sua própria autoria publicou A Roza da Recvsa (1978) e Ludlud (1997), deixando ainda inédito um livro de poemas chamado HEKATOMBLU. Além da poesia, Xavier como figura múltipla e inventiva, deixou uma produção que ultrapassou o discurso poético tradicionalmente estabelecido. Seus escritos são fonte de inspiração para artistas ligados a outros códigos e formas de expressão, como a música e as artes visuais. Nesta linha, compôs em 1993 o livro Manual de sobrevivência do negro no Brasil, com textos seus e ricamente ilustrados pelo chargista Maurício Pestana. Teve ainda alguns dos seus poemas musicados e foi letrista de canções de forró e reggae. Entre elas, “Balada Apokalírica nº 1”, “Reggae por nós” e “Tempo de luz”, gravadas pela banda Jualê. Como compositor ele também teve parceria com o músico Gereba, e uma incursão pelo teatro lançando em 1988, em parceria com Luiz Silva Cuti e Miriam Alves a peça Terramar. Ainda nos anos 1980, participou de encontros de escritores brasileiros e publicou em diversas antologias no exterior.

A literatura de Arnaldo Xavier é demarcada pelos poucos críticos que o analisaram como sendo uma bibliografia engajada em vários momentos, centrada quase sempre na denúncia social e na valorização do negro na literatura afro-brasileira. Aliada a estes elementos contestatórios, temos também um poeta de linguagem experimental que acabou figurando a margem do cânone literário brasileiro e, paradoxalmente, da literatura afro-brasileira, fruto da polêmica postura que este teve frente à cultura brasileira e a literatura negra mantendo um diálogo com as poesias visuais, principalmente com o Poema-Processo e a Poesia Práxis, desenvolvendo, portanto uma obra de cunho intersemiótico, como se referiu Vinicius Lima.

Outra característica de sua poética é a presença constante da formulação de um texto marcado pela ironia e da postura irreverente e mordaz da sociedade brasileira. Este humor ferino é uma herança do negro abolicionista Luiz Gama, sua principal referência literária e militante. Nas palavras de Vinicius Lima, até o momento seu principal comentador e analista literário, “Xavier destrói/constrói a linguagem, deformando as frases feitas, os ditos populares, sempre lançando mão da ironia e humor. Arnaldo Xavier trabalha o poema como um objeto lúdico, brincando com as sonoridades das palavras.”

Desta forma, temos assim um artista múltiplo e inventivo, que não se focou apenas em uma atividade estética e literária, como incursionou também pelas veredas dos debates ideológicos e políticos do seu tempo, visto que conjuntamente a sua longa atuação de escritor na cidade de São Paulo, Arnaldo Xavier foi ativo participante do movimento negro paulistano, procurando a todo o momento lutar contra os preconceitos raciais dos afro-brasileiros, escrevendo ensaios, canções e poemas sobre o negro e sua condição social no Brasil.

 

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Bruno Gaudêncio é escritor, jornalista e historiador. Co-editor da Revista Blecaute, de Literatura e Artes e da Revista Paraibana de História.

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