O Grande Circular: Crônica pelos 300 anos de Fortaleza

Rafael Caneca*

Entrei no ônibus sem saber onde nem quando desceria, o que era talvez a forma mais honesta de conhecer uma cidade que nunca soube direito para onde caminhava.

O Grande Circular tem esse nome por uma razão óbvia. Afinal, não importa onde você embarque, em algum momento o ônibus percorre uma volta completa e você reconhece a rua em que se encontra. “Oxe, estive aqui há algum tempo!”

Paguei a passagem, escolhi um banco perto da janela e deixei Fortaleza começar.

A cidade que passou nos primeiros quarteirões não era a dos turistas, mas aquela onde os holandeses, lá pelo começo do século XVII, numa curva do litoral que o vento castigava, construíram o Forte Schoonenborch – rebatizado pelos portugueses de Forte de Nossa Senhora da Assunção, marco zero da Terra da Luz que, transformado em quartel, também foi sombra (que o diga Bárbara de Alencar). E, precisamente em 13 de abril de 1726, Fortaleza virou vila. E a vila, hoje, completa trezentos anos.

O ônibus dobrou uma esquina e, enquanto o Centro entrava pela janela, meu pensamento se perdeu por pouco tempo, mas infelizmente tempo suficiente para a Praça do Ferreira ficar para trás antes que eu pudesse observar com atenção. Virei a cabeça e apareceram o letreiro do Cine São Luiz, a fachada do Hotel Excelsior e a Coluna da Hora, me lembrando que foi por aqui que a cidade do século XIX aconteceu: o algodão, que enriqueceu alguns e não resolveu nada pra maioria, e depois a seca, com gente chegando a Fortaleza sem nada e precisando reinventar tudo. Isso quando conseguia chegar.

Parado no sinal, busquei por nuvens para aliviar um pouco do calor a que nunca me acostumei, mas o que encontrei foram lojas com as portas fechadas e pessoas dormindo nas calçadas. Cenas que se repetiam a cada quarteirão.

Engoli a seco, calor misturado com angústia, e o ônibus seguiu para bairros que não aparecem em roteiro de viagem, construídos por gente que veio de fora: Cariri, Sertão Central, Vale do Jaguaribe, lugares onde a seca de 1877 matou um terço da população do Ceará e expulsou o resto. Essa gente chegou e ficou porque não tinha pra onde voltar, e os bairros que construíram têm uma lógica própria ou natural. A rua que dobra em um lugar aparentemente sem sentido, porque ali tinha uma árvore anos atrás; ou a viela que só existe porque dois muros não se encontraram direito.

A cidade cresceu desordenada porque quem chega com fome não tem tempo de planejar. É o mesmo princípio que fez Fortaleza virar o que é: uma cidade que foi se resolvendo enquanto andava, sem esperar condição ideal ou manual.

Pensei na seca de 1932, a mais fotografada e a que deixou mais rastro de papel. A dos campos de concentração. A gente que fugiu daquela seca e conseguiu chegar a Fortaleza ajudou a construir exatamente alguns desses bairros que o ônibus atravessava. Três gerações depois, os netos não sabem mais o nome do município de origem, só sabem que são daqui.

Isso também é trezentos anos.

Em algum ponto do percurso, o ônibus fez uma curva larga e o mar apareceu no fim de uma rua. Era um pedaço de horizonte azul espremido entre dois prédios, rápido demais para fotografar, mas tempo suficiente para lembrar que, se você quiser, aqui dá praia todo dia. A verdade é que, mal acostumados que somos, não celebramos esse fato como ele merece.

Sem contar que o mar daqui é o mar de Iracema. Melhor dizendo, é a Praia de Iracema, que foi boêmia quando boemia era sinônimo de uma cultura inesquecível, faustonílica, belchiólica, fagneriana, amelírica e de tantos outros, que foi revitalizada mais de uma vez com o entusiasmo de quem não aprendeu que alguns lugares preferem envelhecer no próprio ritmo.

E então vejo a velha Ponte Metálica ainda lá, resistindo à ressaca, acompanhada dos espigões, vigiada por novas faixas de areia e pela eterna especulação imobiliária.

Mas o que o vislumbre do mar pela janela do ônibus diz sobre Fortaleza é uma coisa que o cartão-postal não diz: a cidade é de litoral, mas não só. É também de gente que veio do interior, chegou ao litoral e ficou olhando o mar com a estranheza de quem não cresceu perto de água. Fortaleza é peixe e mandacaru, é orla e caatinga.

Não sei quanto tempo refleti sobre essas contradições tricentenárias, mas foi o suficiente para o laranja entrar pela janela do ônibus com a desenvoltura de quem não precisa de permissão e me lembrar que o entardecer de Fortaleza é a coisa mais democrática que a cidade tem. Não depende de endereço, de renda, de quem você conhece ou de onde você veio: o céu é o mesmo no Meireles ou no Jangurussu, na cobertura ou na calçada. E, nessa cidade que tem tantas formas de dividir as coisas – o asfalto bom e a via esburacada, a escola bilíngue e aquela com risco de desabamento, o condomínio fechado e a favela –, o entardecer é a exceção que confirma todas as regras.

Antes de anoitecer, desci num ponto qualquer e a cidade permaneceu barulhenta, solar, contraditória e viva, com aquela vitalidade irritante de quem não pediu licença para existir – e não vai começar agora.

Na avenida, vi o Grande Circular se afastar lentamente e seguir sem mim, mas eu sei que uma hora ele volta.

Graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e com especialização em Direito Internacional, Rafael Caneca atua como assessor jurídico no Ministério Público do Estado do Ceará. Escreve desde a infância, mantém há mais de dez anos o perfil literário Pacote de Textos, integra o coletivo de escritores Delirantes, foi vencedor do Prêmio de Literatura BNB Clube (2017) e recebeu menções honrosas nos concursos do Ideal Clube (2012 e 2014). “Não volte sem ele” é seu romance de estreia.

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