Fórum em Fortaleza coloca o Nordeste no centro da economia circular e acelera transição ecológica no Brasil
Por Sérgio Melo | Paraíba Cultural
Quando o Nordeste deixa de ser promessa e vira referência
Fortaleza respira sustentabilidade esta semana. E não é força de expressão. Entre os dias 25 e 27 de março, a cidade se transforma no principal ponto de encontro da economia circular no país com a realização do III Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC).
Mais do que um evento, o que vejo aqui é um movimento organizado, com direção clara: reposicionar o Nordeste como protagonista de um novo modelo econômico, mais justo, regenerativo e conectado com os desafios ambientais do nosso tempo.
Fortaleza vira palco de articulação global pela sustentabilidade
A programação acontece em três espaços estratégicos da cidade: o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o Hub Cultural Porto Dragão e a KUYA – Centro de Design do Ceará.
Ao longo de três dias, cerca de 200 autoridades do Brasil e de países como Costa Rica, Estados Unidos e Portugal participam de uma programação intensa. São 74 horas de atividades que misturam debates técnicos, oficinas, mentorias, feiras criativas e até intervenções artísticas.
Ao caminhar pela programação, fica evidente que o FNEC não quer ficar apenas no discurso. Pelo contrário, ele aposta na conexão entre teoria e prática, aproximando governos, empreendedores, pesquisadores e comunidades.
Economia circular na prática: do conceito à aplicação no território
A economia circular, que propõe reduzir desperdícios e reaproveitar recursos, ganha aqui um formato concreto. Em vez de tratar o tema como tendência, o fórum apresenta soluções reais para o Nordeste.
Por isso, a programação se divide em eixos que dialogam diretamente com a realidade regional. Entre eles estão bioeconomia, economia criativa, inovação, educação, água e até a Caatinga.
Além disso, oficinas como “Costura Sustentável” e “Lei de Incentivo à Reciclagem” mostram que é possível transformar conhecimento em ação. Ao mesmo tempo, mentorias e rodadas de negócios ajudam empreendedores locais a estruturar projetos com impacto ambiental e econômico.
Políticas públicas e economia verde entram no mesmo diálogo
Um dos pontos mais interessantes do FNEC é justamente essa capacidade de integrar diferentes níveis de decisão.
De um lado, estão representantes de instituições como o Ministério da Fazenda, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e a Fundação Ellen MacArthur. Do outro, aparecem iniciativas locais, cooperativas e redes comunitárias.
Essa conexão direta fortalece o Plano de Transformação Ecológica (PTE), que busca posicionar o Brasil como liderança global em economia de baixo carbono.
Segundo representantes do governo federal presentes no evento, o Nordeste tem papel estratégico nesse processo. E, olhando para o que está sendo discutido aqui, isso faz sentido.
Debates internacionais ampliam o olhar sobre o futuro sustentável
Outro ponto forte do fórum é a presença internacional. Especialistas como Carlos Vega e Samuel Ramsey trazem experiências de outros países que já avançaram em soluções sustentáveis.
Essas trocas ampliam o debate. Ao mesmo tempo, ajudam a evitar erros comuns e aceleram caminhos que já foram testados em outros contextos.
Além disso, painéis sobre justiça climática, economia solidária e bioeconomia territorial mostram que a transição ecológica não é apenas ambiental. Ela é social, econômica e cultural.
Cultura, criatividade e sustentabilidade caminham juntas
O que mais me chama atenção no FNEC é a forma como cultura e sustentabilidade aparecem integradas.
Não se trata apenas de números ou indicadores. O evento inclui música, dança, exposições e uma feira criativa que valoriza produtos sustentáveis.
Esse detalhe faz diferença. Porque, no fim das contas, a mudança de modelo econômico também passa por mudança de mentalidade. E a cultura tem um papel central nisso.
O Nordeste como laboratório do futuro
Saio do FNEC com uma impressão clara: o Nordeste não está mais correndo atrás. Está propondo caminhos.
Ao reunir conhecimento técnico, políticas públicas e iniciativas de base, o fórum constrói algo raro no Brasil: articulação real entre discurso e prática.
Se esse movimento se mantiver, o impacto pode ser profundo. Não apenas para a região, mas para o país inteiro.
A economia circular, que antes parecia distante, começa a ganhar forma concreta. E, dessa vez, nasce com sotaque nordestino.