Nem sempre vale a pena: por que decidi não transformar o Paraíba Cultural em Ponto de Cultura

Após mais de uma década de atuação independente, explico por que abrir mão da certificação Cultura Viva foi uma decisão estratégica — e o que isso revela sobre o setor cultural no Brasil

 

Quando o reconhecimento institucional não acompanha a prática

Eu venho construindo o Paraíba Cultural desde 2008 como um espaço independente de comunicação voltado para cultura, turismo e meio ambiente. Ao longo desse tempo, não apenas produzi conteúdo jornalístico, como também atuei diretamente na divulgação de projetos, no apoio a iniciativas culturais e na valorização de territórios paraibanos.

No entanto, quando passei a considerar a possibilidade de transformar o projeto em um Ponto de Cultura, vinculado ao programa Cultura Viva, percebi algo que, na prática, faz toda a diferença: o reconhecimento institucional nem sempre acompanha quem já está fazendo o trabalho acontecer.

E é justamente sobre essa distância entre prática e burocracia que preciso falar.

 

O que realmente significa tentar se tornar um Ponto de Cultura

Em teoria, o título de Ponto de Cultura representa validação, visibilidade e acesso a políticas públicas. No papel, parece um caminho natural para quem atua no setor cultural.

Porém, na prática, a realidade é outra.

Para obter esse reconhecimento, é necessário apresentar uma série de comprovações formais, detalhando atividades, registros e resultados. Ou seja, não basta fazer. É preciso provar — e provar dentro de uma lógica burocrática específica, que muitas vezes não dialoga com a dinâmica de quem trabalha de forma independente.

No meu caso, isso significaria reunir anos de documentação de um projeto que foi sustentado sem qualquer apoio institucional, seja federal, estadual ou municipal.

E, a partir daí, começa o verdadeiro desafio.

 

A burocracia que desconsidera o trabalho real

Manter o Paraíba Cultural ativo por mais de uma década nunca foi simples. Pelo contrário, envolve custos contínuos, produção de conteúdo, deslocamentos, cobertura de eventos e apoio direto a iniciativas culturais.

Além disso, existe um trabalho que quase ninguém vê: planejamento, articulação, produção audiovisual e gestão da comunicação.

Ainda assim, mesmo com tudo isso, o sistema exige provas formais como se esse trabalho não fosse evidente.

Mas ele é.

O site está no ar. O conteúdo é público. As ações são concretas. Basta acessar e ver.

Por isso, o que deveria ser um reconhecimento acaba se transformando em um processo de validação que ignora a própria natureza do jornalismo independente e da atuação cultural autônoma.

 

Entre insistir no processo ou fortalecer o projeto

Diante desse cenário, precisei tomar uma decisão prática.

De um lado, havia a possibilidade de investir tempo e energia em um processo burocrático, com retorno incerto. Do outro, a oportunidade de direcionar esse esforço para fortalecer o próprio projeto.

A resposta veio de forma direta.

Não faz sentido desviar o foco de quem já está produzindo, comunicando e contribuindo de forma concreta para tentar se encaixar em um modelo que não reconhece essa dinâmica.

 

Por que o Paraíba Cultural decidiu seguir outro caminho

A partir dessa reflexão, tomei uma decisão clara: o Paraíba Cultural não buscará certificação como Ponto de Cultura.

Isso, no entanto, não significa um afastamento das políticas culturais. Pelo contrário.

Significa autonomia.

Significa continuar fazendo o que sempre fiz: comunicar, registrar, valorizar e fortalecer a cultura, o turismo e o meio ambiente da Paraíba — só que sem depender de um reconhecimento que, na prática, não acompanha a realidade do trabalho realizado.

 

Novos caminhos: ESG, economia criativa e impacto socioambiental

Se, por um lado, a via institucional se mostrou limitada, por outro, novos caminhos começam a se consolidar.

Hoje, existe uma abertura crescente para parcerias ligadas a ESG, economia criativa e projetos de impacto socioambiental. Nesse contexto, iniciativas independentes ganham espaço justamente por sua capacidade de gerar resultados concretos.

É nesse campo que o Paraíba Cultural pretende avançar.

Porque, no fim das contas, o que sustenta um projeto não é um título, mas sua relevância, sua consistência e sua capacidade de gerar impacto real.

 

Cultura Digital: quando o território também é online

Hoje, o termo cultura digital deixou de ser apenas tendência e passou a fazer parte da estrutura do próprio setor produtivo da cultura.

Na prática, ele traduz como artistas, produtores, coletivos e plataformas utilizam o ambiente digital para criar, registrar, distribuir e dar visibilidade às suas ações.

É dentro desse contexto que assumo também a responsabilidade de atuar como conselheiro de cultura em Campina Grande, representando a Cultura Digital — uma posição conquistada de forma democrática e que carrega um compromisso direto com essa nova dinâmica.

Mais do que discutir tecnologia, essa representação trata de reconhecer o papel estratégico das plataformas independentes, dos criadores de conteúdo e dos ecossistemas digitais na economia criativa local.

Assim, a cultura digital deixa de ser apenas ferramenta e passa a ser linguagem, território e também campo de atuação política dentro da cultura.

 

 

 

O papel do jornalismo cultural independente no Nordeste

Em um estado como a Paraíba, e de forma mais ampla em todo o Nordeste, o jornalismo cultural independente cumpre um papel que a mídia tradicional raramente consegue alcançar.

Enquanto grandes veículos priorizam agendas comerciais ou pautas generalistas, os projetos independentes partem do território, escutam quem vive nele e constroem narrativas a partir dessa realidade.

Além disso, não se trata apenas de cobrir eventos. Trata-se de manter presença contínua, acompanhar processos e dar visibilidade a artistas, coletivos e iniciativas que normalmente ficam fora do radar.

Nesse cenário, plataformas digitais especializadas funcionam como verdadeiros arquivos vivos e canais estratégicos de circulação cultural.

E, justamente por isso, ajudam a conectar comunidades, registrar memórias e fortalecer identidades regionais.

 

Quando dizer “não” também é um posicionamento

Nem sempre vale a pena se tornar um Ponto de Cultura.

E dizer isso não é uma crítica isolada. É um relato direto de quem vive o dia a dia da comunicação cultural independente no Brasil.

O Paraíba Cultural segue ativo, produzindo, registrando e contribuindo — como sempre fez.

Agora, com ainda mais clareza sobre o seu próprio caminho.

 

 

 

Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental. Coordenador de projetos de Educação Ambiental no portal Paraíba Cultural e no Q-Ideia – Design e Comunicação. Atua em ações integradas de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento territorial no Estado da Paraíba.

 

 

Por que o jornalismo cultural independente é essencial?

Enquanto os grandes veículos de comunicação concentram sua cobertura em pautas nacionais e interesses comerciais, o jornalismo cultural independente cumpre um papel que muitas vezes passa despercebido: dar visibilidade aos territórios, às identidades locais e às expressões culturais que nascem fora dos grandes centros.

É justamente nesses espaços independentes que artistas, coletivos e iniciativas culturais encontram abertura real para mostrar seu trabalho. Sem esse suporte, boa parte da produção cultural local simplesmente não ganha espaço — e, consequentemente, não circula, não se fortalece e não se sustenta.

 

Quem depende desse ecossistema?

  • Artistas independentes que não acessam a grande mídia
  • Projetos culturais de base comunitária
  • Iniciativas de turismo local e economia criativa
  • Instituições que atuam diretamente nos territórios

Na prática, esses agentes dependem do jornalismo independente não apenas para divulgação, mas para existir publicamente. É ele que constrói narrativa, memória e presença digital.

 

O paradoxo institucional

Apesar disso, muitos órgãos institucionais seguem na contramão. Em vez de fortalecer quem já atua diretamente nos territórios, insistem em direcionar recursos para veículos tradicionais, que raramente cobrem essas realidades com profundidade.

Além disso, a burocracia para acesso a editais e parcerias acaba afastando iniciativas independentes, que já operam com recursos limitados e estrutura enxuta. O resultado é um cenário desigual, onde quem produz impacto real enfrenta mais obstáculos do que apoio.

 

Valorizar o jornalismo cultural independente não é apenas uma questão de comunicação — é uma estratégia concreta de fortalecimento da cultura local, da economia criativa e da identidade dos territórios.

 

 

Quanto custa manter um site como o Paraíba Cultural?

Manter um projeto independente de jornalismo cultural vai muito além de publicar matérias. Existe uma estrutura invisível, contínua e muitas vezes subestimada que sustenta o funcionamento do site, a produção de conteúdo e a presença nos territórios.


Estrutura inicial (implantação do projeto)

  • Desenvolvimento do site: R$ 5.000 a R$ 15.000
  • Design e identidade visual: R$ 2.000 a R$ 8.000
  • Criação de marca e posicionamento: R$ 1.500 a R$ 5.000

*Esses valores podem variar, mas representam o investimento mínimo para estruturar um projeto profissional.


Custos mensais de manutenção

  • Hospedagem, domínio e suporte técnico: R$ 150 a R$ 500
  • Produção de conteúdo jornalístico: R$ 3.000 a R$ 10.000
  • Gestão, atualização e edição: R$ 2.000 a R$ 6.000
  • Design, audiovisual e redes sociais: R$ 1.500 a R$ 5.000

Mesmo em estruturas enxutas, o custo mensal facilmente ultrapassa R$ 6.000 a R$ 20.000, dependendo do nível de atuação.


Custos de atuação nos territórios

  • Viagens e deslocamentos: R$ 500 a R$ 3.000 por ação
  • Cobertura de eventos culturais: R$ 800 a R$ 4.000
  • Apoio a projetos e iniciativas locais: variável
  • Produção audiovisual em campo: R$ 1.000 a R$ 5.000

Esses custos são essenciais para garantir presença real nos territórios — algo que diferencia o jornalismo independente da cobertura superficial.


No fim das contas, manter um projeto como o Paraíba Cultural não é apenas uma questão de comunicação. É um investimento contínuo em cultura, memória, território e desenvolvimento local — muitas vezes sustentado sem apoio institucional.

 

 

 

 

 

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