Reisado no Nordeste brasileiro: origem de uma tradição cultural viva

Por Sérgio Melo

 

Cresci ouvindo histórias, cantigas e relatos que atravessam gerações no Nordeste brasileiro. Entre essas memórias afetivas e coletivas, o Reisado sempre ocupou um lugar especial. Mais do que uma manifestação cultural, ele é um elo vivo entre passado e presente, fé e festa, tradição e resistência popular.

O Reisado tem origem nas tradições ibéricas trazidas ao Brasil durante o período colonial, especialmente ligadas às celebrações do Ciclo Natalino. Sua matriz está associada às festas de Reis, comemoradas entre o Natal e o Dia de Reis, em 6 de janeiro, quando, segundo a tradição cristã, os três Reis Magos visitaram o menino Jesus. Ao chegar ao Nordeste, essa celebração foi profundamente ressignificada, incorporando elementos indígenas, africanos e da cultura sertaneja, dando origem a uma expressão cultural singular e vibrante.

Historicamente, o Reisado se consolidou como uma brincadeira popular encenada, marcada por música, dança, teatralidade e simbolismo. Os grupos — conhecidos como ternos ou folguedos — percorrem ruas, praças e comunidades, levando alegria, devoção e narrativa. Os personagens variam conforme a região, mas geralmente incluem reis, rainhas, embaixadores, palhaços, caretas e figuras fantásticas, todos conduzidos pelo som de sanfonas, zabumbas, pandeiros e violas.

O que sempre me chama atenção é como o Reisado expressa a cosmovisão do povo nordestino. Ali estão presentes a fé católica popular, o humor crítico, a oralidade, a música e a dança como formas de educar, contar histórias e fortalecer laços comunitários. Não se trata apenas de um espetáculo, mas de um ritual social, nos quais mestres e brincantes transmitem saberes de geração em geração, muitas vezes sem registros escritos, sustentados pela memória e pela vivência.

Ao longo do tempo, o Reisado resistiu às transformações sociais, à urbanização e às pressões culturais externas. Em muitos municípios do Nordeste — especialmente na Paraíba, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Alagoas — ele segue vivo graças ao esforço de mestres da cultura popular, associações comunitárias e políticas públicas de valorização do patrimônio imaterial.

Falar do Reisado é falar de identidade, pertencimento e resistência cultural. É reconhecer que o Nordeste guarda, em suas manifestações populares, um patrimônio imenso, que precisa ser respeitado, documentado e fortalecido. No Reisado, o povo canta sua fé, dança sua história e reafirma, ano após ano, que a cultura popular segue sendo uma das maiores riquezas do Brasil.

No Paraíba Cultural, contar essa história é também um compromisso: valorizar quem mantém viva essa tradição e garantir que o Reisado continue encantando gerações, como uma das mais belas expressões da alma nordestina.

 

Reisado da Escola dos Sonhos, Bananeiras, PB. Foto: Sérgio Melo

 

 

Reisado no Nordeste e na Paraíba

O Reisado é uma das mais tradicionais manifestações da cultura popular nordestina, integrando o chamado
Ciclo Natalino. Presente em diferentes estados do Nordeste, o folguedo reúne música, dança, teatro popular
e religiosidade, mantendo viva uma herança cultural de origem europeia, indígena e africana.

  • Origem: Influência das festas ibéricas de Reis, trazidas ao Brasil no período colonial,
    ressignificadas no Nordeste com elementos da cultura popular local.
  • Período de realização: Entre o Natal (25 de dezembro) e o Dia de Reis (6 de janeiro), podendo se estender até fevereiro em algumas regiões.
  • Estados com forte tradição: Paraíba, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas e Sergipe.
  • Elementos principais: Cantorias, danças coreografadas, encenações teatrais, cortejos e personagens simbólicos
    como reis, rainhas, embaixadores, palhaços e caretas.
  • Instrumentos tradicionais: Sanfona, zabumba, pandeiro, triângulo, reco-reco e viola.

Na Paraíba, o Reisado é reconhecido como uma importante expressão do patrimônio cultural imaterial,
especialmente em comunidades do interior do estado. Mestres e brincantes mantêm a tradição por meio da oralidade,
da vivência comunitária e da transmissão intergeracional dos saberes.

Além de sua dimensão religiosa, o Reisado cumpre um papel social fundamental: fortalece vínculos comunitários,
preserva memórias coletivas e reafirma a identidade cultural nordestina.


Fontes:
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN);
Fundação Nacional de Artes (FUNARTE);
Câmara Cascudo, Luís da – Dicionário do Folclore Brasileiro;
Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba (SECULT-PB).

 

 

Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental. Coordenador de projetos de Educação Ambiental no portal Paraíba Cultural e no Q-Ideia – Design e Comunicação. Atua em ações integradas de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento territorial no Estado da Paraíba.

 

 

 

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