O plano de Teodósio de Oliveira Ledo que transformou o Riacho das Piabas no berço de Campina Grande
O mistério do Riacho das Piabas e o plano de Teodósio de Oliveira Ledo que criou Campina Grande
Por Sérgio Melo | Paraíba Cultural
Caminhar pelas ruas do Centro de Campina Grande hoje exige um exercício de imaginação que poucos se dispõem a fazer. No entanto, enquanto observo o concreto que domina a paisagem, não consigo deixar de pensar que, sob nossos pés, corre o sangue que batizou esta terra. Recentemente, mergulhei na história do Riacho das Piabas e percebi que entender este curso d’água é, em última análise, entender a própria alma da Rainha da Borborema.
A estratégia de Teodósio de Oliveira Ledo e o nascimento da vila
Para compreender a importância desse riacho, precisamos voltar ao ano de 1697. Naquela época, o capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo não escolheu este local por acaso. Como um explorador experiente, ele sabia que a sobrevivência de qualquer povoamento dependia de uma fonte de água confiável. Consequentemente, foi nas margens do Riacho das Piabas que ele estabeleceu o aldeamento dos índios Ariús.
A escolha foi puramente estratégica, pois o riacho oferecia águas límpidas e uma posição geográfica privilegiada entre o litoral e o sertão. Assim sendo, o que hoje conhecemos como o burburinho comercial do Centro e do bairro da Conceição, um dia foi o cenário silencioso de uma natureza exuberante que atraiu os primeiros colonizadores. Por esse motivo, podemos afirmar que o Riacho das Piabas é o verdadeiro “DNA” geográfico de Campina Grande.
Da abundância das águas ao confinamento sob o asfalto
Infelizmente, o progresso nem sempre caminha de mãos dadas com a preservação. Com o passar dos séculos, o riacho que outrora corria livre para alimentar o Açude Velho acabou sendo vítima da urbanização acelerada. Durante minhas pesquisas no Paraíba Cultural, notei que a canalização transformou esse patrimônio histórico em uma galeria pluvial invisível para a maioria dos campinenses.
Apesar de estar escondido, o riacho ainda clama por atenção. Atualmente, o trecho que atravessa o bairro de José Pinheiro e a comunidade Rosa Mística sofre com o descarte irregular de resíduos. Além disso, a poluição que atinge suas águas compromete diretamente a saúde do nosso principal cartão-postal, o Açude Velho. Portanto, é fundamental entender que o problema ambiental do açude começa quilômetros antes, nas nascentes sufocadas da Zona Norte.
O desafio de resgatar o berço da Rainha da Borborema
Embora o cenário pareça desolador, ainda há uma luz no fim do túnel para o nosso velho riacho. Especialistas e ambientalistas defendem que a revitalização das nascentes, na região da Mata do Louzeiro, é o primeiro passo para devolver a dignidade ao curso d’água de Teodósio. Além do mais, projetos de urbanização consciente poderiam transformar áreas degradadas em parques lineares, reconectando a população com sua história hídrica.
Em conclusão, olhar para o Riacho das Piabas não é apenas um exercício de nostalgia histórica, mas uma necessidade urgente de sobrevivência urbana. Se Teodósio de Oliveira Ledo viu ali o futuro de uma cidade, cabe a nós, séculos depois, garantir que esse futuro não se perca no esgoto. Afinal, uma cidade que ignora seus rios é uma cidade que apaga sua própria memória.
Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental. Coordenador de projetos de Educação Ambiental no portal Paraíba Cultural e no Q-Ideia – Design e Comunicação. Atua em ações integradas de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento territorial no Estado da Paraíba.