Agricultura familiar impulsiona a produção de abacaxi da Paraíba e abastece o Sudeste
Se os números colocam a Paraíba como o segundo maior produtor de abacaxi do Brasil, por trás desse desempenho existe uma base sólida: a agricultura familiar. Mais do que grandes propriedades mecanizadas, o que sustenta a cultura no Estado são pequenos e médios produtores que transformaram o abacaxi em fonte contínua de renda e emprego.
Hoje, cerca de 70% dos abacaxicultores paraibanos são agricultores familiares. Isso significa que a maior parte da produção nasce em propriedades onde o trabalho é feito, principalmente, pela própria família. E é justamente esse modelo que garante capilaridade econômica e estabilidade social no campo.
O perfil do produtor: trabalho familiar e gestão no detalhe
Diferentemente de culturas altamente mecanizadas, o abacaxi exige manejo cuidadoso. O plantio, o controle de pragas, a indução floral e a colheita demandam atenção constante. Por isso, a presença direta do produtor na lavoura faz diferença.
Além disso, como muitos utilizam mão de obra própria, os custos operacionais tendem a ser mais controlados. Ainda assim, não se trata de uma cultura barata. O investimento médio por hectare pode chegar a R$ 20 mil nas áreas irrigadas e cerca de R$ 16 mil nas áreas de sequeiro. Portanto, é uma atividade que exige planejamento técnico e financeiro.
Ao mesmo tempo, a geração de empregos é significativa. Para cada hectare plantado, são criados cerca de cinco empregos diretos. Assim, a abacaxicultura não apenas movimenta a economia, mas também mantém pessoas no campo, reduzindo o êxodo rural.
Municípios que concentram a força produtiva
A produção se espalha pelo Litoral, Zona da Mata e Agreste. Municípios como Itapororoca, Araçagi, Santa Rita, Pedras de Fogo, Lagoa de Dentro e Curral de Cima lideram o cultivo.
Nessas regiões, o sistema produtivo combina áreas de sequeiro e de irrigação. Enquanto a colheita se intensifica entre agosto e dezembro, os produtores que utilizam irrigação conseguem manter a oferta ao longo de todo o ano. Consequentemente, isso garante regularidade no abastecimento e maior previsibilidade de renda.
Do campo para o Sudeste: como funciona a cadeia de comercialização
Depois da colheita, começa outra etapa decisiva: a logística. Grande parte da produção paraibana segue para a região Sudeste, especialmente para os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Este último, inclusive, é considerado o maior importador do abacaxi produzido na Paraíba.
O escoamento ocorre principalmente por transporte rodoviário. Dessa forma, a organização da colheita precisa estar alinhada com prazos rigorosos de entrega, já que o fruto é perecível. Além disso, padrões de classificação e embalagem influenciam diretamente no valor final pago ao produtor.
A qualidade do abacaxi paraibano, reconhecida pelo sabor e pela uniformidade, facilita sua aceitação nos principais centros atacadistas do país. Portanto, a boa reputação do produto não é apenas uma questão de orgulho regional, mas um diferencial competitivo real no mercado.
Impacto econômico que começa na roça
Quando observamos os mais de 334 milhões de frutos colhidos e a renda superior a R$ 345 milhões gerada pela atividade, é fácil focar apenas nos números. No entanto, o impacto mais relevante está na base produtiva.
Cada propriedade familiar envolvida representa circulação de renda no comércio local, fortalecimento de cooperativas, movimentação de transporte e serviços, além de arrecadação para os municípios. Ou seja, a cadeia do abacaxi não termina na venda do fruto, ela se desdobra em uma rede econômica ampla.
Uma cultura estratégica para o desenvolvimento regional
A agricultura familiar na abacaxicultura paraibana demonstra que é possível combinar escala produtiva com inclusão social. Enquanto o Estado mantém posição de destaque nacional, milhares de famílias garantem sua subsistência e ampliam suas oportunidades.
Portanto, mais do que ocupar o segundo lugar no ranking brasileiro, a Paraíba mostra que desenvolvimento rural passa por organização produtiva, assistência técnica e acesso a mercados consolidados. E, nesse cenário, o abacaxi segue como um dos pilares da economia agrícola estadual.
Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental. Coordenador de projetos de Educação Ambiental no portal Paraíba Cultural e no Q-Ideia – Design e Comunicação. Atua em ações integradas de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento territorial no Estado da Paraíba.

