Espetáculo ‘Namíbia, Não!’ celebra quinze anos de reflexão sobre racismo e autoritarismo diante da deportação para repúblicas afrodiaspóricas

Com direção de Lázaro Ramos, participação gravada de Wagner Moura e texto de Aldri Anunciação, ‘Namíbia, Não!’ comemora os quinze anos do espetáculo no Brasil, Alemanha, Londres e Portugal; além de celebrar a adaptação da peça ao cinema (Medida Provisória, 2020) e à literatura. 

Levar o debate racial para além dos palcos é um dos méritos que a peça ‘Namíbia, Não!’ conquistou ao longo dos quinze anos em cartaz. Quando a peça de Aldri Anunciação estreou no ‘Teatro Castro Alves’, em Salvador (BA), no ano de 2011, as ‘águas de março’ anunciavam um alerta preocupante: pelos próximos sete anos, o Tribunal de Justiça do Estado da Bahia (TJ-BA) julgaria apenas sete dos 222 processos instaurados por crime de racismo dentro do estado mais negro do Brasil, mesmo com 80,8% da população autodeclarada preta ou parda, segundo o IBGE.

Dialogando diretamente com o ‘contexto sociopolítico’ da época – e incomodamente atual em 2026, Aldri teve uma ideia que revolucionaria o universo dramatúrgico da Bahia, e que o colocaria, tempos mais tarde, no eixo Rio–São Paulo: trazer uma Medida Provisória que deportasse os cidadãos de ‘Melanina Acentuada’ para a África e repúblicas afrodiaspóricas, colocando a provocação no centro de uma peça de ficção futurística, mas que ainda assim, assinasse uma mensagem ‘escancarada’ sobre o racismo na sociedade e o método hediondo para sanar a dívida histórica escravocrata do país.

A montagem foi um sucesso. Com direito à crítica especializada da ensaísta, tradutora e crítica de teatro brasileira, Bárbara Heliodora (1923 – 2015), abrindo às portas da receptividade da peça no território do Corcovado, no Rio de Janeiro, o rebuliço  causado por Aldri ganhou o Sudeste e o Nordeste do Brasil, passando pelas regiões Sul, Norte e Centro-Oeste do país, até ganhar projeção internacional. As versões que o autor escreveu cruzaram o Atlântico Norte e as proximidades do Mar da Noruega, com receptividade em Portugal, Alemanha e na capital do Reino Unido, em Londres.

Do alemão, ‘Namíbia, Nein!’, mas registrado pela Fischer como ‘Niemals Namíbia’, a montagem também integrou o ‘Ano do Brasil em Portugal’ e abriu a programação do FITEI, em Porto (2013), posteriormente traduzida para o inglês na leitura/ensaio aberto do Soho Theatre (2016), em Londres. Colocando os primos André e Antônio nos destaques ‘em cartaz’ da terra de Sir. Arthur Conan Doyle, a montagem traz os familiares no centro das discussões, em um jogo de xadrez velado que prevê a volta dos cidadãos de ascendência africana para as terras de seus “supostos familiares”.

Dentro de cena, o convite à reflexão é feito desde os primeiros minutos encenados. Ao ser apresentado a um “catálogo de países africanos” pela atriz e bailarina Ana Paula Bouzas (a ‘Socióloga’) para ser deportado, o personagem André, figura contracenada atualmente por Jhonny Salaberg (Parto Pavilhão, 2021), reverbera a icônica fala que dá nome à peça: “Não! Não! Namíbia, Não! Esse país foi colonizado por alemães. Nada contra os alemães, mas eu não falo alemão!”, exclama.

“Não esqueço do quão impressionada fiquei ao conhecer o argumento do ‘Namíbia, Não!’ e, da mesma forma, instigada com a possibilidade de entrar em sala de ensaio para trabalhar essa ideia que já me parecia ali, apontar para um horizonte de muitas dimensões. A montagem foram dias de uma espécie de usina criativa regada a perspicácia, humor, inteligência, sensibilidade, leveza e afeto. Estar com ‘Lazinho’, Aldri e Flavinho na geração desse projeto, produziu em mim memórias divertidas e bem especiais. E como é bom saber que a criação segue viva e reverberando tanto tempo!”, relembra a atriz brasileira Ana Paula Bouzas.

Arrancar risadas do público, ao passo que um incômodo surge dentro do “e se isso realmente acontecesse”, é uma das propostas do autor, ator, diretor e produtor Aldri Anunciação. O dramaturgo, que também esteve em Berlim para referências ao seu bacharelado, é um dos talentos baianos nascidos em 1973, sucessor de artistas que também impactaram sua época, como Osman Lins (1924-1978), autor de Lisbela e o Prisioneiro; e Ariano Suassuna (1927-2014), autor de O Auto da Compadecida. Carregando esse legado para as novas gerações, Aldri é um dos poucos cineastas e dramaturgos a ter uma peça adaptada do teatro para o audiovisual  e para a literatura.

Do texto original de ‘Namíbia, Não!’, o livro homônimo lançado em 2012 pela Editora Edufba trouxe um novo formato e apresentação da peça, a partir das inquietações do autor sobre recortes no roteiro original. O sucesso foi tamanho que, um ano após a publicação, o roteirista foi laureado com o ‘Prêmio Jabuti’ na categoria Juvenil, além de emplacar as discussões do debate sobre o racismo, políticas imigratórias e o contexto sociopolítico do país nas salas de aula, através do Programa Nacional de Distribuição de Livros do MEC – que distribuiu exemplares de ‘Namíbia, Não!’ nas escolas públicas, em edição produzida pela Editora Perspectiva.

“Quem faz teatro vive muito a dimensão operária da coisa: cenário, passagem, som, ritmo, manutenção do espetáculo em cada palco. Essa consciência de ‘marco’ vem sempre depois, quando a obra começa a ultrapassar o próprio território do teatro. Para mim, esse ponto de virada foi quando o texto ganhou o ‘Prêmio Jabuti’ (2013, categoria Juvenil). Ali eu entendi que não era ‘só’ um espetáculo bem-sucedido, era uma narrativa capaz de atravessar linguagens, entrar em bibliotecas, escolas, universidades e mesas de debate”, recorda Anunciação.

 

O sucesso não se restringiu às salas de aula. A montagem, ainda em 2012, inovaria mais uma vez no território nacional, desta vez, sob a ótica do cinema. Contemplada um ano após a peça, mas filmada somente em 2019, “Medida Provisória” (2020) é mais um clássico originado da peça ‘Namíbia, Não!’. Lotando mais de 265 salas e 194 cinemas, o longa-metragem conquistou o título de segunda maior bilheteria nacional de 2022, permanecendo em cartaz por 18 semanas, com uma audiência média de 470 mil espectadores.

Para além do roteiro já conhecido nas casas de espetáculos e teatros do Brasil, os nomes apresentados pelo longa também dão um toque especial à produção. Dando uma de Stan Lee, Aldri Anunciação é um dos escalados da peça no papel de Ivan, e figura junto à Taís Araújo (Capitú), Seu Jorge (André), Alfred Enoch (Antônio), Adriana Esteves (Isabel Garcéz), Renata Sorrah (Dona Izildinha) e Emicida no papel de ‘Berto’.

“Quando o Lázaro me procurou, em 2016, já existia um processo muito sólido de desenvolvimento da peça para virar roteiro de cinema. Então eu entrei com o barco já andando. E, evidentemente sou branco, portanto, a minha principal contribuição no processo foi ouvir muito mais do que falar e em termos técnicos, encaixar algumas coisinhas ali para ficar um roteiro mais de cinema e menos de teatro. Mas o principal em minha relação com o ‘Medida Provisória’ não foi o que eu fiz pelo filme e sim o que o filme fez por mim. Abriu um monte de portas, um monte de entendimentos. Lembro dos meus cafés da manhã em hotéis, quando a gente estava lançando o filme, com o Aldri, onde eu aprendi muito sobre racismo, sobre pretitude, negritude, várias coisinhas que eu nunca tinha ouvido falar, e que através do Aldri eu me tornei um ser humano melhor”, relembra Lusa Silvestre, coautor da adaptação de ‘Namíbia, Não!’ para o cinema no longa ‘Medida Provisória’.

Da peça ao filme, a presença do diretor Lázaro Ramos é também um destaque de ‘Namíbia, Não!’ e de ‘Medida Provisória’. Além do ator e dramaturgo, outros nomes de destaque da cinematografia nacional se juntam aos quinze anos da peça no país, como as ‘participações gravadas’ da atriz Léa Garcia (mãe idosa); Wagner Moura (ministro da Devolução); Ana Paula Bouzas (socióloga); Caio Rodrigo (policial 1); Marcelo Flores (policial 2); Laura Castro (garota assaltada); Francisco Pithon (moleque); Suely Franco (Dona Araci); Lázaro Ramos (Seu Machado); Pedro Paulo Rangel (Seu Nina, vizinho); Filipe Pires (advogado); Evelin Buchegger (aeromoça) e Antônio Fragoso (repórter em Angola); além dos ‘personagens em vídeo’ encenados por Luis Miranda (Nóia Maria), Maria Beltrão (Maria Beltrão), Edmilson Barros (Capitão Ricardo), Cláudia Ventura (Apresentadora de TV) e Antônio Fragoso como repórter.

 

“Eu fiquei muito contente quando ‘Namíbia’ tomou uma proporção desse tamanho, uma ideia que a gente vê nascer. A nossa profissão precisa se afirmar na profundidade do olhar do ser humano, abrir o olhar do ser humano, abrir a visão sempre para melhor. Então, ‘Namíbia, Não!’ foi isso. É uma alegria muito grande. E ver a proporção que teve como um filme, com outra equipe de amigos incríveis, entende? Quer dizer, olha os prismas, o prisma que se dá um trabalho e aonde ele vai parar. Isso é incrível, é o crescimento, é a ascensão de uma obra, de uma ideia. E é disso que o ser humano precisa para poder se elevar aqui nesse mundo. Eu só fico extasiada. Esplendoroso tudo isso”, comenta Evelin Buchegger, atriz e participante da montagem original da peça.

 

Dentro de cena, enquanto os primos Antônio, interpretado por Aldri Anunciação, e André, contracenado hoje por Jhonny Salaberg (Parto Pavilhão, 2021), ganhavam os teatros e o grande público, o endurecimento das políticas imigratórias entrelaçou os caminhos das artes cênicas com a realidade. Um dos destaques em que “a vida imita o vídeo”, segundo Aldri, é a participação sonora de Wagner Moura (O Agente Secreto, 2025), que entrega o peso dramático ao cerco vivido na ‘ficção’, mas que após quinze anos, é ironicamente citado pelo próprio ator.

 

“A participação sonora de Wagner é uma presença que não é decorativa: ela encarna a engrenagem autoritária, a força do Estado, e dá peso dramático ao cerco. E isso dialoga muito com a temporada comemorativa porque a comemoração não é nostalgia: é a prova de que a distopia ficou perto. Wagner, inclusive, tem falado publicamente sobre o endurecimento e o clima de medo em torno do ICE nos EUA, ou seja, ele está, hoje, no centro de uma conversa global sobre autoritarismo, imigração e perseguição”, explica Aldri.

 

Após rodar mais de 20 cidades e 11 estados, totalizando mais de mil apresentações ao redor do Brasil e do mundo – alcançando a marca de mais de um milhão de espectadores – Namíbia, Não! retorna ao lar, em Salvador (BA), com a sensação de dever cumprido e com uma bagagem que se atualiza ano após ano. O idealizador da obra destaca ainda o retorno de metade da equipe técnica à peça, que segue acreditando no espetáculo, mesmo após 15 anos de trajetória nos teatros.

 

Retornando em data comemorativa, a próxima parada do espetáculo Namíbia, Não! acontece no Teatro SESC Casa do Comércio, entre os dias 14 e 15 de abril, terça e quarta-feira, para sessões especiais a partir das 20h. Sujeito a lotação, os tickets estão disponíveis através do Sympla.

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