O que o ditado “Sem eira nem beira” realmente significa?

Por Sérgio Melo

 

Frequentemente, usamos expressões populares sem conhecer as suas verdadeiras raízes históricas. Quando dizemos que alguém está “sem eira nem beira”, voltamos no tempo até o período colonial brasileiro. Afinal, por que um detalhe no telhado definia o status de uma família inteira?

A resposta para esse enigma não está nos livros de gramática, mas sim na herança arquitetônica portuguesa. Hoje, convido você a olhar para cima e entender como essas construções ditavam a classe social na nossa história.

 

A arquitetura como símbolo de poder

Durante os séculos passados, a verdadeira riqueza de uma família era medida pela fachada da sua casa. Naquela época, a ostentação se manifestava através dos materiais de construção e dos detalhes artesanais.

Consequentemente, o acabamento dos telhados funcionava como o maior indicador de classe social disponível. As telhas de barro, moldadas artesanalmente, formavam os arremates que chamamos de eira, beira e tribeira.

 

Entendendo a eira, a beira e a tribeira

Os habitantes mais ricos construíam os seus casarões com três fileiras de telhas sobrepostas. Primeiramente, a camada superior e mais alta chamava-se tribeira. Logo abaixo dela, ficava a beira. Por fim, a eira sustentava todo o conjunto de proteção.

Além de protegerem as paredes contra as fortes chuvas, esses ornamentos exigiam muito dinheiro para serem instalados. Portanto, ter um telhado completo significava possuir vastos recursos financeiros e grande influência política.

 

A arquitetura dos telhados coloniais revelava o status financeiro das famílias e deu origem à famosa expressão popular “sem eira nem beira”.

 

A verdadeira origem do ditado

Por outro lado, uma família com menos posses financeiras conseguia construir apenas a eira e a beira. Já a população mais pobre construía as suas casas de forma muito mais simples e crua. Sendo assim, eles não tinham condições de pagar por esses arremates estéticos e funcionais.

Como resultado, os telhados das moradias mais humildes terminavam de forma abrupta, no exato alinhamento das paredes. Sem esses ornamentos de proteção, as casas ficavam muito mais vulneráveis às intempéries do clima. Daí surgiu, inevitavelmente, a famosa expressão que utilizamos no nosso vocabulário até os dias de hoje.

Dizer que alguém “não tem eira nem beira” significa afirmar, arquitetonicamente, que a pessoa não possui patrimônio. Embora a expressão seja muito repetida no nosso cotidiano regional, ela é uma herança lusitana presente em todo o Brasil.

Como um observador do nosso meio ambiente construído, percebo como o barro e o design moldaram a nossa comunicação. Certamente, preservar a memória histórica das nossas construções também é um grande ato de sustentabilidade cultural.

 

 

 

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