O Maior São João do Mundo: por que a raiz do forró fica com menos de 1% dos R$ 45 milhões?

Por Sérgio Melo

 

Eu nasci e cresci respirando a cultura nordestina profundamente. Por isso, ao analisar os números do Maior São João do Mundo, em Campina Grande, fiquei alarmado. O megaevento revela hoje uma desproporção orçamental extrema e perigosa.

Com um custo total de R$ 45 milhões, a festa simplesmente esquece sua essência. Apenas 0,91% desse valor gigantesco chega aos palcos secundários. Assim, os verdadeiros guardiões do nosso forró de raiz agonizam financeiramente.

 

85% das atrações dividem as migalhas de um orçamento milionário

A matemática do evento assusta qualquer gestor cultural responsável. Hoje, os grupos tradicionais de forró representam 85,71% das atrações contratadas. No entanto, o Palco Principal e a megaestrutura absorvem 99,09% dos recursos.

Essa disparidade brutal mostra uma grave falta de planejamento turístico e sociocultural. Infelizmente, a rica cultura campinense virou apenas um pano de fundo. Consequentemente, o protagonismo financeiro acabou totalmente sequestrado pelas grandes atrações comerciais.

 

 

 

 

Quanto vale a nossa história diante de cachês aviltantes?

Quando caminho pela nossa Caatinga, sempre admiro a enorme resiliência do povo. Dessa forma, vejo que essa mesma resistência é exigida dos nossos músicos. Atualmente, uma dupla de violeiros recebe apenas R$ 650 por apresentação.

Nas tradicionais Ilhas de Forró, o cenário também é desolador. Um trio tradicional fatura meros R$ 950 para animar os turistas. Já no Forró Pirâmide e no Palco Cultural, os valores sobem timidamente. Eles recebem R$ 1.200 e R$ 1.500, respectivamente, por cada show.

Tudo isso soma escassos R$ 409.200 para 396 apresentações locais. Portanto, a desvalorização do patrimônio imaterial soa como uma política de fato. Certamente, não se trata de um mero erro de cálculo.

 

A viabilidade financeira de um São João justo e regional

Como técnico em gestão ambiental, sei que a sustentabilidade exige muito equilíbrio. Na economia da cultura local, a regra essencial é exatamente a mesma. Surpreendentemente, existe uma saída financeira clara para valorizar nossos artistas.

Se aplicássemos o cachê justo de R$ 5.500 aos trios locais, o cenário mudaria. Afinal, este já é o valor praticado pelo edital João Gonçalves (PNAB 2026). Com isso, o custo dessas 396 apresentações subiria para R$ 2.178.000.

Ainda assim, esse novo valor representaria apenas 4,84% do orçamento total. Além disso, consumiria somente 16,75% dos R$ 13 milhões captados via Lei Rouanet. Ou seja, dinheiro não falta para o município, mas sobra miopia.

O Maior São João do Mundo precisa urgentemente honrar suas próprias raízes. Sem o som genuíno da sanfona e da zabumba, a festa perde sua alma. Sendo assim, pergunto a você, leitor: até quando aceitaremos que a nossa cultura seja tratada como atração de segunda classe dentro da nossa própria casa?

 

 

O Abismo Financeiro do São João (2026)

Análise orçamentária do Maior São João do Mundo em Campina Grande-PB:

A conta que não fecha

Volume de atrações: Forró (Palcos secundários)
85,71%
396 de 462 atrações:
14,29%
Orçamento destinado: Forró (Palcos secundários)
0,91%
99,09% para palco principal e estrutura:

Investimento na Cultura Raiz

R$ 409.200,00

Para todas as 396 apresentações locais nos palcos secundários

Orçamento Total do Evento

R$ 45 Milhões

Receitas via Lei Rouanet (R$ 13M) e Outras Fontes (R$ 32M)

A Realidade dos Cachês (Por Apresentação)

Categoria / PalcoQtd. AtraçõesCachê Pago
Dupla (Violeiro/Coco) – Palco do Repente66R$ 650,00
Trio de Forró – Ilhas de Forró198R$ 950,00
Grupos de Forró – Palco Pirâmide66R$ 1.200,00
Grupos de Forró – Palco Cultural66R$ 1.500,00

A Solução Possível:

Se todas as 396 atrações recebessem o valor justo de R$ 5.500,00 (Edital PNAB 2026), o custo subiria para R$ 2.178.000,00. Isso representaria apenas 4,84% do custo total do evento e 16,75% dos recursos da Lei Rouanet.

 

 

 

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