Picuí, Santa Luzia e Junco do Seridó lideram os investimentos em energia eólica na Paraíba
O vento como ativo ambiental e econômico no interior paraibano
Por Sérgio Melo
Nos últimos anos, o debate sobre energia limpa deixou de ser algo distante para se tornar parte concreta da paisagem do interior da Paraíba. Especialmente entre 2024 e 2025, o avanço dos investimentos em energia eólica colocou municípios do Sertão e do Curimataú no centro da transição energética brasileira. Nesse contexto, Picuí, Santa Luzia e Junco do Seridó se destacam não apenas pelos valores investidos, mas também pelo impacto ambiental, territorial e social desses empreendimentos.
Mais do que números, esses projetos ajudam a entender como o semiárido paraibano vem sendo reinterpretado. Onde antes se falava apenas em escassez, hoje se fala em potencial, planejamento e uso estratégico dos recursos naturais, sobretudo do vento e do sol.
Picuí concentra o maior investimento eólico já realizado na Paraíba
Entre os municípios paraibanos, Picuí ocupa posição de destaque absoluto. O motivo é a implantação do Complexo Eólico Serra da Palmeira, desenvolvido pela CTG Brasil e considerado o maior projeto da empresa em todo o país.
Com investimento estimado em R$ 3,7 bilhões, o complexo conta com 108 aerogeradores distribuídos pela região do Curimataú e do Seridó paraibano. Esse volume de infraestrutura não apenas amplia a capacidade de geração de energia limpa, como também altera a dinâmica ambiental da região, exigindo estudos, monitoramento e compensações ambientais contínuas.
Ao mesmo tempo, Picuí passa a assumir um papel estratégico no cenário da sustentabilidade energética, mostrando que o planejamento ambiental pode caminhar junto com grandes empreendimentos, desde que haja responsabilidade e acompanhamento técnico adequado.
Santa Luzia se firma como polo integrado de energias renováveis
Enquanto Picuí lidera em volume de investimento, Santa Luzia se consolida como um dos principais polos integrados de energias renováveis da Paraíba. Na região, os projetos do Complexo Renovável da Neoenergia somam mais de R$ 3 bilhões, combinando geração de energia eólica e solar.
Esse modelo integrado chama atenção por otimizar o uso do território e dos recursos naturais disponíveis. Além disso, reforça uma lógica mais eficiente de ocupação do semiárido, reduzindo pressões ambientais concentradas em uma única fonte energética.
Por isso, Santa Luzia deixa de ser apenas um ponto de geração e passa a representar uma nova forma de pensar o desenvolvimento regional, onde a diversificação energética também funciona como estratégia de equilíbrio ambiental.
Junco do Seridó abriga o maior parque eólico da EDF na América do Sul
Outro município fundamental nesse cenário é Junco do Seridó. Na região está instalado o Parque Eólico Serra do Seridó, desenvolvido pela EDF Renewables, com investimento estimado em R$ 2 bilhões. Trata-se do maior parque eólico do grupo em toda a América do Sul.
Esse dado reforça a relevância ambiental e estratégica do Seridó paraibano em escala internacional. Além disso, o empreendimento amplia a responsabilidade sobre o território, exigindo atenção especial à fauna, à vegetação nativa e às comunidades do entorno.
Consequentemente, Junco do Seridó passa a integrar um seleto grupo de municípios que não apenas produzem energia limpa, mas também participam ativamente do debate sobre limites, impactos e benefícios da transição energética.
Sertão e Curimataú formam o principal corredor eólico do estado
Quando observamos o mapa dos investimentos, fica evidente que o Sertão e o Curimataú concentram o coração da energia eólica na Paraíba. Municípios como Salgadinho, São José de Sabugi e Assunção, além de Picuí, Santa Luzia e Junco do Seridó, integram esse território estratégico.
Essa concentração transforma o Seridó paraibano em um verdadeiro corredor eólico, com implicações diretas para o planejamento ambiental regional. Ao mesmo tempo em que gera energia limpa, a expansão exige políticas públicas voltadas à gestão do território, à conservação da Caatinga e ao diálogo permanente com as populações locais.
Portanto, o desafio não é apenas produzir energia, mas garantir que esse processo seja ambientalmente equilibrado e socialmente justo.
Energia limpa, território e responsabilidade ambiental
Em síntese, Picuí, Santa Luzia e Junco do Seridó simbolizam uma nova fase do desenvolvimento paraibano, onde o meio ambiente deixa de ser obstáculo e passa a ser parte da solução. Os bilhões investidos em energia eólica entre 2024 e 2025 mostram que o vento do Sertão ganhou valor estratégico.
No entanto, esse avanço traz consigo responsabilidades. O futuro da energia eólica na Paraíba dependerá da capacidade de conciliar geração limpa, preservação ambiental e benefícios reais para as comunidades locais. Se bem conduzido, esse caminho pode transformar o semiárido em referência nacional de sustentabilidade e uso inteligente dos recursos naturais.
Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental. Coordenador de projetos de Educação Ambiental no portal Paraíba Cultural e no Q-Ideia – Design e Comunicação. Atua em ações integradas de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento territorial no Estado da Paraíba.