A alma da Borborema sob concessão: Até onde a privatização do São João sufoca nossa força regional?

Análise profunda revela o abismo entre o marketing bilionário e o apagamento da identidade cultural na gestão do Parque do Povo.

 

Por Sérgio Melo | Paraíba Cultural

 

Andar pelas ruas de Campina Grande em junho é sentir o pulsar de uma identidade que resiste bravamente ao tempo. No entanto, ao analisar friamente os documentos oficiais que regem a festa atualmente, percebo que o “Maior São João do Mundo” corre o risco de se tornar um gigante sem alma. Por consequência deste modelo de privatização agressiva, o que vemos é uma festa que brilha intensamente no marketing nacional, mas que deixa sombras densas sobre o setor cultural e a força regional da nossa Rainha da Borborema.

 

 

O Raio-X da concessão: Quem realmente ganha com o Parque do Povo?

Primeiramente, é fundamental entender a escala do que foi entregue à iniciativa privada nos últimos dois anos. Não se trata apenas da exploração do Parque do Povo. O objeto da concessão abrange espaços vitais como o Açude Novo, Parque da Criança, o Quadrilhódromo na Estação Velha e até os distritos de Galante, Catolé de Boa Vista e São José da Mata. Em virtude disso, a gestão econômica desses locais foi transferida, o que deveria, em tese, trazer inovação, mas tem resultado em um distanciamento perigoso da nossa base produtiva local.

Todavia, o que testemunhamos é uma gestão que prioriza o lucro imediato em detrimento da nossa essência paraibana. Embora o evento venda uma marca poderosa e lucrativa, ele permanece muito distante de resultados práticos para o microempreendedor, o artesão e o forrozeiro de base. Além disso, a falta de um calendário de turismo anual impede que a economia circular se consolide, transformando o São João em uma ilha de consumo isolada, em vez de um motor contínuo de desenvolvimento da nossa identidade.

 

 

No coração do Maior São João do Mundo: Uma imersão autêntica na cultura nordestina no Parque do Povo, em Campina Grande, Paraíba. Esta imagem captura a essência da festa junina, onde o forró pé-de-serra, o artesanato local e a gastronomia regional se encontram. Turistas se deliciam com pratos típicos como tapioca, canjica, pamonha e queijo coalho assado, enquanto se encantam com as xilogravuras e a energia contagiante da música. Uma verdadeira celebração da tradição e da alegria paraibana. Crédito: IA Q-Ideia/Sérgio Melo

 

 

A retórica das “Atrações Nacionais” e o apagamento da nossa identidade

Com efeito, um dos pontos mais críticos desta atual gestão é a insistência em uma retórica conservadora e excludente. Frequentemente, ouvimos gestores alegarem que o público exige apenas “artistas nacionais”. Mas, deixem-me ser claro: o turista que atravessa o país para vir à Paraíba não busca o que ele já tem em festivais de plástico no Sudeste. Pelo contrário, ele busca a trilha sonora autêntica dos nossos forrozeiros pé de serra, a nossa rica gastronomia e a espetacular força das nossas quadrilhas juninas.

Ademais, é vergonhoso observar como o setor produtivo cultural e a economia criativa são escanteados nesse processo. É necessário que a sociedade civil retome o protagonismo da nossa história. Precisamos cobrar metas claras e profissionalismo da gestão municipal. Afinal, o São João de Campina Grande precisaria apenas de uns seis grandes nomes da verdadeira MPB para ancorar a grade, deixando o restante do palco para quem sustenta a nossa cultura o ano inteiro. Infelizmente, o modelo atual favorece grupos alinhados a grandes produtoras, ameaçando o nosso DNA regional.

 

Inovação e gestão: O caminho para um São João sustentável

Portanto, o setor cultural precisa tomar posse desses dados e fiscalizar cada cláusula dessa concessão com rigor. Campina Grande possui todos os elementos — educação, tecnologia e força regional — para criar um ecossistema onde todos os setores da cidade lucrem de forma circular. Para que isso aconteça, precisamos substituir urgentemente a “política de eventos” passageira por uma “política de cultura” sólida. A inovação não deve estar apenas no tamanho do palco, mas na forma como integramos nossa alma no fluxo financeiro da festa.

Como dizia o mestre Luiz Gonzaga: “O forró não morreu nem morrerá, porque é a alma do povo”.

E Darcy Ribeiro, defensor da cultura, educação e identidade nacional brasileira, nos lembrava com sua sabedoria: “O povo sem cultura é um povo sem identidade, e um povo sem identidade é um povo que se entrega”.

Que não entreguemos nossa alma aos mercadores da cultura de plástico. Que o Maior São João do Mundo volte a ser, antes de tudo, o Maior São João da Nossa Gente.

 

 

 

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