O grito que ecoa na Rainha da Borborema: Por que o forró é a alma (e o valor) do nosso São João

Por Sérgio Melo

 

Caminhar pelo Parque do Povo durante o mês de junho é mergulhar em um oceano de sons, cores e sabores. No entanto, para além da grandiosidade dos palcos principais, existe um pulsar rítmico que define a nossa identidade: o som da sanfona, do triângulo e da zabumba. Recentemente, encontrei-me refletindo sobre uma questão crucial: qual o real valor cultural que o forró e seus trios representam para o “Maior São João do Mundo”? Mais do que entretenimento, estamos falando da espinha dorsal de um evento que projeta a Paraíba para o planeta.

 

A força regional que sustenta o título de “Maior do Mundo”

Inegavelmente, não se pode pronunciar o título de “Maior São João do Mundo” sem reverenciar, em primeiro lugar, o artista da terra. O forró não é apenas um gênero musical; ele é a força regional e sonora do nosso povo manifestada em cada acorde. Com efeito, os trios de forró são os guardiões de uma tradição que resiste ao tempo e às pressões da indústria comercial.

Portanto, a valorização desses profissionais é uma medida da nossa própria autoestima cultural. Quando um turista chega a Campina Grande, ele busca a autenticidade que apenas o forró raiz pode proporcionar. Por esse motivo, o perfil da nossa festa junina deve estar intrisecamente ligado ao apoio incondicional àqueles que mantêm viva a chama do autêntico forró pé-de-serra.

 

Negociações em curso: A espera por valores que respeitem a tradição

Todavia, o reconhecimento pleno ainda depende de definições financeiras fundamentais. No momento, o cenário é de intensa expectativa. Embora a Prefeitura de Campina Grande tenha sinalizado favoravelmente ao reajuste, os valores finais ainda estão sendo discutidos entre a gestão municipal e a produtora responsável pelo evento. É um momento decisivo, pois o “grito de socorro” dos forrozeiros, ouvido em edições anteriores, exige uma resposta que seja, acima de tudo, justa.

Ademais, entidades civis e os próprios sanfoneiros permanecem em vigília, aguardando a confirmação oficial dos novos valores dos cachês para 2026. Afinal, como manter um bem cultural, material e imaterial, sem a garantia de que o artista terá seus custos e seu talento devidamente cobertos? A luta agora não é apenas por um aumento, mas pela dignidade de quem faz a festa acontecer na base.

 

Por que o cachê justo é um investimento no patrimônio paraibano

Certamente, a batalha por uma remuneração digna vai muito além de uma questão trabalhista; é uma salvaguarda do nosso patrimônio. Ao remunerar corretamente o sanfoneiro, o zabumbeiro e o triangueiro, estamos garantindo que as próximas gerações tenham interesse em aprender e perpetuar essa arte. Sem essa base, o evento corre o risco de se tornar apenas uma vitrine de grandes shows, perdendo sua essência.

Dessa maneira, o São João de 2026 tem o potencial de ser um marco de respeito. A partir do momento em que a produtora e a prefeitura compreendem que o forró é um bem imaterial que precisa de fomento real, o evento ganha em qualidade e verdade. Em suma, valorizar o artista da terra é o investimento mais rentável que Campina Grande pode fazer para manter sua soberania cultural no cenário global.

 

O futuro da tradição depende da nossa vigilância

Em conclusão, acompanhamos de perto os desdobramentos dessas reuniões entre o poder público e a organização privada. O forró é o nosso DNA. Sem os trios, o Parque do Povo seria apenas um grande festival de música, perdendo sua alma junina. Consequentemente, continuaremos aqui no Paraíba Cultural dando voz aos artistas que aguardam esse desfecho.

Afinal, a cultura só é plena quando o artista é respeitado e a tradição é tratada com a dignidade que sua história merece. Esperamos que a confirmação dos novos valores venha acompanhada do reconhecimento de que, sem o forró, o Maior São João do Mundo simplesmente deixa de existir.

 

 

 

0 Shares

Post relacionado

Ativar notificações Sim Não
On which category would you like to receive?