Artistas denunciam o esvaziamento cultural nos palcos juninos sob a ameaça da mercantilização
Por Sérgio Melo
O São João da Paraíba, outrora símbolo máximo da nossa identidade nordestina, atravessa uma crise de propósito. Enquanto o poder público investe milhões em grandes estruturas, nomes que consolidaram a música regional — como Flávio José e Santanna — tornam-se raridades nos palcos principais. A substituição da sanfona, do triângulo e da zabumba por ritmos alheios à nossa história não é apenas uma mudança de gosto musical; é um projeto de apagamento cultural financiado, muitas vezes, pelo erário.
Como gestor ambiental, compreendo que sistemas só se mantêm vivos quando respeitam seu ecossistema. A cultura nordestina é o nosso bioma imaterial. Quando gestores públicos priorizam o lucro imediato e atrações midiáticas de qualidade duvidosa, eles não apenas excluem o artista da terra. Eles rompem a economia circular da nossa cultura, sufocam o artesão e condenam o forró de raiz ao ostracismo, transformando nossa maior celebração em um cenário cenográfico para selfies de turistas.
A voz de quem faz a história: o desabafo de Liss Albuquerque
A indignação não é isolada. O cantor e compositor Liss Albuquerque, com décadas de estrada dedicadas à cultura popular, sintetiza o sentimento de muitos. Para ele, o alerta vai além da insatisfação pessoal: trata-se de um debate sobre a sobrevivência da alma do Nordeste.
“O São João não é feito apenas de grandes estruturas. Ele é construído pela história e pela voz daqueles que cantam essa cultura o ano inteiro. Sem os artistas da terra, a festa corre o risco de perder sua essência”, afirma Albuquerque.
O relato de Liss, que encontrou na festa do Bode Rei, em Cabaceiras, o respeito que falta em tantas outras grades, é um lembrete necessário. Cabaceiras demonstra que é possível aliar a gestão pública à valorização dos talentos regionais, mantendo o elo vital entre o público e a tradição.
Gestão pública ou produtora de eventos privada?
É fundamental traçar uma linha divisória clara. Se empresários do setor privado desejam investir em artistas sem ligação com a cultura junina, que o façam em eventos de bilheteria e com recursos próprios. O modelo de sucesso do passado, como o que vimos no Spazzio e Forroque, provou que existe espaço para o entretenimento comercial sem a necessidade de sequestrar o patrimônio cultural público.
O que vivenciamos hoje é o uso da máquina pública para chancelar o mercantilismo em detrimento da nossa identidade. A falência cultural de uma região não ocorre do dia para a noite. Ela acontece quando paramos de investir no compositor local, quando negamos o palco ao trio de forró e quando acreditamos que a cultura é apenas um acessório comercial, e não a estrutura que define quem somos.
O futuro da nossa tradição depende de posicionamento
Precisamos perguntar: quem queremos ser daqui a dez anos? Um Estado que exporta forró, poesia e cultura de raiz, ou um Estado que apenas serve de palco para a indústria fonográfica nacional, trazendo lucros para políticos e seus parceiros empresários, ignorando seus próprios mestres?
A valorização do artista local não é um favor político, é um dever ético. Enquanto a sanfona for tratada apenas como objeto de decoração em um “sítio rústico”, falharemos em nosso compromisso com o futuro. Defender o forró é, acima de tudo, defender o direito do povo nordestino de se reconhecer em suas próprias festas.
Sérgio Melo é jornalista, gestor ambiental e entusiasta da valorização da identidade cultural nordestina.