Algas marinhas podem ajudar lavouras a resistir à seca, revela pesquisa da Embrapa
Tecnologia desenvolvida por pesquisadores brasileiros mostra que bioestimulantes à base de algas podem aumentar a produtividade agrícola mesmo em períodos de estiagem
Por Sérgio Melo — Paraíba Cultural
Em um cenário em que as mudanças climáticas ampliam os períodos de seca e colocam a segurança alimentar em risco, pesquisadores brasileiros começam a encontrar respostas na própria natureza. Um estudo recente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) aponta que extratos de algas marinhas podem ajudar plantas a enfrentar melhor o estresse hídrico, reduzindo os impactos da falta de chuva nas lavouras.
A pesquisa, conduzida pela Embrapa Agroenergia, investigou o uso de compostos derivados de algas da costa brasileira como bioestimulantes agrícolas. Os primeiros resultados chamam atenção. Em testes realizados em ambiente controlado, cientistas observaram ganhos expressivos no desenvolvimento de culturas como canola e trigo, duas plantas bastante sensíveis à escassez de água.
Além disso, os dados sugerem que a tecnologia pode se tornar uma ferramenta importante para agricultores que enfrentam secas cada vez mais frequentes em diversas regiões do país.
Pesquisa revela aumento significativo no desenvolvimento das plantas
Os experimentos foram realizados em casa de vegetação, onde temperatura, luminosidade e umidade podem ser controladas. Nesse ambiente, pesquisadores acompanharam o desenvolvimento das plantas durante diferentes fases de crescimento.
No caso da canola, os resultados foram especialmente expressivos. O uso do bioestimulante derivado de algas aumentou em até 160% a formação de síliquas, estruturas que abrigam as sementes e determinam diretamente o potencial produtivo da cultura.
Já no trigo, o principal efeito observado foi o crescimento do sistema radicular. As raízes apresentaram aumento de até 12%, o que pode ajudar a planta a buscar água em camadas mais profundas do solo.
Isso é importante porque, em períodos de estiagem, plantas com raízes mais desenvolvidas tendem a resistir melhor à falta de água. Como consequência, a produtividade agrícola pode sofrer menos perdas.
Tecnologia brasileira busca reduzir impactos das mudanças climáticas
A pesquisa faz parte do projeto Algoj, iniciativa que investiga o potencial das algas marinhas como insumos agrícolas sustentáveis.
O trabalho reúne pesquisadores da Embrapa e da empresa CBKK, com financiamento da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). A proposta é desenvolver produtos capazes de aumentar a resiliência das plantas diante de condições climáticas extremas.
Segundo os cientistas envolvidos no estudo, o objetivo não é apenas aumentar a produtividade. Na verdade, a prioridade é reduzir perdas causadas pela seca, fenômeno que já se tornou um dos principais desafios da agricultura global.
Mesmo assim, os pesquisadores destacam que os resultados ainda precisam ser testados em campo. Embora os experimentos em estufa tenham mostrado avanços relevantes, a performance em lavouras comerciais pode variar.
Ainda assim, especialistas consideram promissor o fato de que mesmo ganhos entre 5% e 10% na produtividade já seriam extremamente relevantes para o setor agrícola.
Bioinsumos ganham espaço na agricultura sustentável
O estudo também reforça uma tendência crescente no campo: a busca por soluções biológicas para aumentar a produtividade agrícola de forma mais sustentável.
Nos últimos anos, bioinsumos como bactérias benéficas, fungos e extratos naturais passaram a ocupar espaço importante nas estratégias de manejo agrícola. Esses produtos ajudam plantas a crescer melhor, além de reduzir a dependência de fertilizantes químicos e defensivos.
Nesse contexto, as algas marinhas aparecem como uma alternativa interessante. Elas possuem compostos naturais capazes de estimular o crescimento das plantas, melhorar a absorção de nutrientes e aumentar a resistência a estresses ambientais.
Portanto, se os resultados forem confirmados em larga escala, o uso de algas pode se tornar uma ferramenta importante para agricultores que enfrentam os efeitos das mudanças climáticas.
O desafio de produzir alimentos em um clima cada vez mais instável
A busca por tecnologias que tornem a agricultura mais resiliente se torna cada vez mais urgente. Afinal, eventos climáticos extremos já impactam a produção de alimentos em diversas regiões do mundo.
No Brasil, por exemplo, estudos indicam que o avanço das mudanças climáticas pode intensificar doenças e pragas agrícolas, além de alterar regimes de chuva e temperatura. Isso tende a exigir novas estratégias de adaptação no campo.
Nesse cenário, pesquisas como a da Embrapa mostram que inovação científica e soluções baseadas na natureza podem caminhar juntas.
Enquanto a crise climática avança, a ciência brasileira segue tentando responder a uma pergunta essencial: como produzir mais alimentos sem esgotar os recursos naturais do planeta?
Talvez, curiosamente, parte dessa resposta esteja escondida no oceano.