A Geometria do Horizonte: Uma representação da adolescência em Brasília nos anos 80.

Brasília a geometria do horizonte e o despertar da mente

Por Sérgio Melo

 

Se Campina Grande me deu as raízes e Mimoso do Oeste me deu a escala, Brasília foi o horizonte onde minha mente se expandiu para o infinito. Chegar à capital federal na adolescência foi como desembarcar em um cenário que parecia vir do futuro. Entre os monumentos de Niemeyer e as largas avenidas que cortavam o Eixo Monumental, descobri que o caminhar ganha outra cadência quando o céu é o nosso único teto.

Brasília tinha uma atmosfera diferente: as pessoas pareciam dispersas, distantes da irmandade quase familiar do meu Nordeste. Mas esse silêncio das superquadras à tarde, longe de ser estranho, me cativava. Era nesse intervalo entre o concreto e o vento que eu encontrava espaço para a minha arte fluir. O desenho, que sempre foi para mim algo tão natural quanto respirar, ganhou novas formas. Eu criava com o que o mundo descartava, transformando eletrônicos e materiais esquecidos em expressões de uma energia criativa que não parava de crescer.

Minhas “universidades” eram as bancas de revista próximas de casa. Ali, entre pilhas de gibis da DC, encontrei no Batman uma conexão filosófica e artística que moldaria minha visão de mundo. Tornei-me um consumidor voraz de conhecimento; a ponto de, por vezes, tomar conta das bancas enquanto os donos saíam para seus compromissos. Era um tempo de xadrezinhos — aqueles ônibus que serpenteavam pelo Plano Piloto — e de tardes intermináveis na Rodoviária, entre pastéis e novidades literárias.

O CONIC era o meu porto seguro. Caminhar por seus corredores, visitar a Venâncio 2000 ou passar horas na Berlim Discos ouvindo raridades de U2 e Depeche Mode era o rito de passagem da minha juventude. Foi nesse período que minha carteira de trabalho foi assinada pela primeira vez, no COFEN (Conselho Federal de Enfermagem), e que vivi a rotina de buscar notícias em quartéis para uma revista militar. Mas, aos finais de semana, o destino era o Lago Paranoá, no Clube Motonáutica, onde a solidão era apenas um convite para conhecer novas famílias e histórias.

Apesar de toda a modernidade, a saudade da Paraíba era o fio que me mantinha ligado ao chão. Eu subia no telhado de casa para observar o horizonte de Brasília, mas o que meus olhos buscavam, no fundo, eram as sensações que só a casa na Prata me proporcionava. Ao entardecer, eu pegava a bicicleta, abria os braços e sentia o vento no rosto sob um céu que passava do azul profundo ao laranja sangue.

Hoje, percebo que Brasília me ensinou a geometria do propósito. Entre Drummond e o Cavaleiro das Trevas, entre o concreto de JK e a poeira do Cerrado, entendi que caminhar com propósito é saber apreciar o silêncio da superquadra enquanto nos preparamos para o barulho do mundo. Aquela criança que subia no telhado para olhar o horizonte ainda vive em mim, lembrando que a maior riqueza é aquela que cultivamos do pescoço para cima, mesmo quando nossos pés estão prontos para o próximo giro em torno do sol.

 

 

Sérgio Melo é Tecnólogo em Gestão Ambiental, Jornalista e Designer. Coordenador de projetos no Paraíba Cultural e entusiasta da sustentabilidade e das crônicas da vida cotidiana.

 

 

A Geometria do Horizonte: Uma representação da adolescência em Brasília nos anos 80.

 

 

 

0 Shares

Post relacionado

Ativar notificações Sim Não
On which category would you like to receive?