Caatinga no centro das políticas ambientais: o que as novas medidas anunciadas para 2026 representam para o Brasil e para a Paraíba
O ano de 2026 começa a ser desenhado como um marco positivo para o bioma Caatinga, o único bioma exclusivamente brasileiro. Em um cenário historicamente marcado pela degradação ambiental, avanço da desertificação e escassez hídrica, o anúncio da criação de 12 novas Unidades de Conservação (UCs) federais traz um sinal concreto de mudança de rumo. Ao todo, mais de um milhão de hectares passarão a integrar áreas oficialmente protegidas, ampliando significativamente a salvaguarda de ecossistemas estratégicos no Semiárido.
A medida não vem isolada. Ela integra um conjunto de ações estruturantes que apontam para uma política ambiental mais consistente e de longo prazo voltada à Caatinga. Entre elas, destaca-se a meta do governo brasileiro de recuperar 10 milhões de hectares do bioma até 2045, com ações práticas de restauração de áreas degradadas já previstas para 2026. Trata-se de um reconhecimento explícito de que a conservação da Caatinga passa, necessariamente, pela recuperação do que já foi perdido.
Outro anúncio relevante é o investimento de R$ 150 milhões do Banco do Nordeste (BNB) em projetos de recuperação ambiental com foco na Caatinga. Esse aporte financeiro cria oportunidades reais para iniciativas que conciliem conservação, geração de renda e desenvolvimento territorial sustentável, especialmente para agricultores familiares, comunidades tradicionais e organizações da sociedade civil que atuam diretamente no território.
Nesse mesmo sentido, o projeto Conecta Caatinga, gerido pelo FUNBIO, surge como uma iniciativa estratégica ao destinar R$ 30 milhões para o manejo integrado da paisagem, priorizando a conservação da biodiversidade. O conceito de manejo integrado é fundamental para o Semiárido, pois considera não apenas áreas isoladas de preservação, mas a conectividade entre fragmentos de vegetação, propriedades rurais, unidades de conservação e territórios produtivos.
As ações também dialogam diretamente com a realidade social da região. A meta de instalar 221 mil cisternas até o final de 2026 reforça o enfrentamento aos efeitos das mudanças climáticas e ao processo de desertificação, promovendo segurança hídrica e dignidade para milhares de famílias do Semiárido brasileiro.
O que isso representa para a Paraíba
Para a Paraíba, essas notícias abrem um campo expressivo de possibilidades. O estado abriga áreas sensíveis e estratégicas da Caatinga, especialmente nas regiões do Cariri, Curimataú, Sertão e Alto Sertão. A criação de novas Unidades de Conservação federais pode impulsionar a consolidação de mosaicos de áreas protegidas, fortalecer corredores ecológicos e ampliar o potencial para o turismo de base comunitária e o ecoturismo.
Os recursos anunciados pelo BNB e pelo Conecta Caatinga podem ser acessados por projetos paraibanos voltados à restauração ecológica, agroecologia, sistemas agroflorestais adaptados ao Semiárido, manejo de abelhas nativas sem ferrão, conservação de nascentes e valorização de espécies endêmicas da Caatinga. Universidades, institutos federais, ONGs e coletivos locais têm a oportunidade de transformar esses investimentos em ações concretas no território.
A expansão das cisternas, por sua vez, dialoga diretamente com a realidade de milhares de famílias paraibanas que ainda convivem com a insegurança hídrica. Além de garantir acesso à água, essas tecnologias sociais fortalecem a permanência das populações no campo e contribuem para práticas produtivas mais resilientes às mudanças climáticas.

Um bioma estratégico para o futuro
As medidas anunciadas representam mais do que números ou investimentos pontuais. Elas sinalizam uma mudança de paradigma: a Caatinga deixa de ser vista apenas como um território vulnerável e passa a ser reconhecida como um bioma estratégico para o futuro ambiental, climático e socioeconômico do Brasil.
Para a Paraíba, o desafio agora é transformar essas oportunidades em políticas públicas locais, projetos bem estruturados e ações contínuas de educação ambiental, pesquisa científica e desenvolvimento sustentável. Proteger a Caatinga não é apenas conservar a natureza, mas garantir qualidade de vida, identidade cultural e futuro para quem vive no Semiárido.
Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental. Coordenador de projetos de Educação Ambiental no portal Paraíba Cultural e no Q-Ideia – Design e Comunicação. Atua em ações integradas de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento territorial no Estado da Paraíba.