Ilustração artística da Praça do Rosário e Escola do Rosário nos anos 80 em Campina Grande por Sérgio Melo.

Caminhar com propósito: Memórias e crônicas de Sérgio Melo

O giro do sol e a geometria dos passos

 

Por Sérgio Melo

 

Caminhar é um ato biológico, mas caminhar com propósito é uma forma de arte. Desde março de 1972, venho completando giros em torno do sol, e cada um desses giros deixou um rastro de poeira e aprendizado nas calçadas que pisei. Já percorri as largas avenidas de Brasília, as terras de Mimoso do Oeste na Bahia, a brisa de João Pessoa e as ladeiras históricas de Campina Grande. Mas é aqui, no bairro da Prata, que o meu caminhar hoje encontra um eco mais profundo.

Ao cruzar a frente da Igreja do Rosário, a luz da manhã — aquela mesma claridade vívida do final dos anos 70 — parece filtrar o tempo. Naquela época, eu estava no início da minha alfabetização e nos primeiros passos do catolicismo. Lembro perfeitamente da sirene da Escola do Rosário: ela começava baixinha, quase um sussurro mecânico, e ia ganhando giro e volume até tomar conta de todo o ambiente. Era o som da liberdade.

Quando a porta se abria, corríamos em busca da praça. Entre árvores e jardins, nossas bacias acumulavam água da chuva onde brincávamos com sapos e gias. Éramos pequenos cientistas descalços, vivendo momentos inesquecíveis sem saber que estávamos ali, naquele quadrilátero de fé e diversão, construindo o alicerce de quem nos tornaríamos.

Hoje, aos 54 anos, a caminhada é outra. O passo é firme, mas o olhar é mais atento. Lembro-me de Peter Drucker quando dizia que sua riqueza estava “do pescoço para cima”. De fato, o conhecimento é o único ativo que transcende crises e sobrevive ao tempo. Ao longo desses anos, vi ciclos de amizade se fecharem como capítulos de um livro. Personagens passaram, alguns deixando afeto, outros revelando a fragilidade do ego humano. Aprendi que a caminhada exige resiliência contra os que tentam inferiorizar a inovação e a competência por pura insegurança psicológica.

Busco, na sabedoria dos jesuítas, o conceito de ser “contemplativo na ação”. É o que faço agora: integro o meu propósito profissional e a vida ativa com uma motivação espiritual. Caminho sob o sol de Campina Grande, uma cidade rica de histórias e personagens marcantes, lembrando e esquecendo de quem passou, mas mantendo viva a criança que corria pela Praça do Rosário.

Como Bono, do U2, reflete em sua autobiografia, sinto que vivo uma espécie de “segunda adolescência” na maturidade — um tempo de gratidão e de valorização do agora. E como Drummond bem pontuou, o verdadeiro desperdício da vida está na “prudência egoísta que nada arrisca”.

Minha crônica não é um registro do que passou, mas um mapa do que continua. Continuo caminhando, trilhando as letras e os propósitos que me movem, consciente de que cada passo dado sob o sol da Paraíba é um verso novo escrito no asfalto da minha própria história. O som daquela sirene da infância ainda ressoa em mim, mas agora ela não anuncia o fim da aula, e sim o início de mais um capítulo que se abre diante de meus pés.

 

Sérgio Melo é Tecnólogo em Gestão Ambiental, Jornalista e Designer. Coordenador de projetos no Paraíba Cultural e entusiasta da sustentabilidade e das crônicas da vida cotidiana.

 

 

 

Representação realista da alfabetização e fé nos anos 70 e 80 no bairro da Prata.

 

 

 

Ilustração artística da Praça do Rosário e Escola do Rosário nos anos 80 em Campina Grande por Sérgio Melo.

 

 

 

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