Estrutura de Armazém Geral com secadores a gás em Mimoso do Oeste Bahia anos 90, Sérgio Melo.

Mimoso do Oeste: A escala do mundo e a chama da inovação

Por Sérgio Melo

 

Se Campina Grande me deu o alfabeto, Mimoso do Oeste — que o tempo e o progresso rebatizariam como Luís Eduardo Magalhães — deu-me a escala do mundo. Entre outubro de 1997 e setembro de 1999, vivi um biênio que moldaria definitivamente o meu olhar de gestor. Deixei o relevo acidentado da Borborema para mergulhar na imensidão plana do Oeste Baiano, onde o sol se põe sem pressa e a linha do horizonte parece um convite ao infinito.

Ao lado do meu irmão mais velho, assumi a gestão de um Armazém Geral. Era um lugar que respirava agricultura e produção em larga escala, mas que ainda guardava gargalos técnicos que desafiavam a eficiência. Recebíamos o suor dos produtores — em sua maioria sulistas que desbravavam o Cerrado — na forma de montanhas de soja, arroz, feijão e milho.

O que mais me marcou, entretanto, foi o cheiro da fumaça. Os secadores de 15 toneladas eram alimentados a lenha, um processo que, além do impacto ambiental, comprometia a qualidade do grão. A fumaça impregnava o alimento, retirando-lhe nutrientes e o aroma natural, rebaixando o que deveria ser comida de gente ao status de ração animal.

Foi nesse cenário, entre a poeira vermelha e o som constante das máquinas, que a inovação se impôs. Desafiado por um engenheiro da Brasil Gás de Salvador, decidi que o Armazém não seria apenas um depósito, mas um centro de excelência. Organizamos um evento para os fazendeiros da região, apresentando uma tecnologia que parecia futurista para o Mimoso de então: secadores italianos alimentados por baterias de botijões de gás P45.

A transição foi uma revolução silenciosa. Ao substituir a lenha pela chama limpa do gás, não apenas modernizamos a operação; resgatamos o propósito do grão. O alimento que saía de nossas mãos agora mantinha sua integridade nutricional, livre do odor da combustão.

Nesses dois anos, percorrendo estradas que me levaram também a Goiás e ao Tocantins para negociar safras, vi a beleza exuberante do Cerrado ser confrontada pelo avanço desenfreado do agro. Ali, entre uma negociação e outra, percebi que o meio ambiente precisava de defensores que entendessem de produtividade, mas que não abrissem mão da preservação.

Ao partir em 1999, levei comigo mais do que o conhecimento sobre o beneficiamento de grãos. Levei a certeza de que a riqueza “do pescoço para cima” só faz sentido quando serve para inovar processos, respeitar a terra e garantir que o progresso não deixe para trás apenas um rastro de fumaça.

Hoje, ao revisitar essas memórias, compreendo que Mimoso foi um dos trechos mais desafiadores da minha caminhada com propósito. Caminhar com propósito não é apenas mover os pés, mas é saber que cada passo dado deve deixar um legado de clareza e transformação. Aquela chama azul que acendi no final dos anos 90 ainda ilumina o meu trajeto atual; ela me lembra que, seja nas ruas da Prata ou nas estradas do Cerrado, o meu caminhar é guiado pela vontade inabalável de integrar o conhecimento à vida, transformando realidades enquanto sigo girando em torno do sol.

 

 

Sérgio Melo é Tecnólogo em Gestão Ambiental, Jornalista e Designer. Coordenador de projetos no Paraíba Cultural e entusiasta da sustentabilidade e das crônicas da vida cotidiana.

 

 

 

Estrutura de Armazém Geral com secadores a gás em Mimoso do Oeste Bahia anos 90, Sérgio Melo.

 

 

 

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