Campina Grande o reencontro com o chão da Borborema

Por Sérgio Melo

 

No início de janeiro de 1993, eu ainda me encontrava no Distrito Federal, cercado pela arquitetura monumental e o céu de Brasília. Após um biênio de muitas aventuras, descobertas artísticas e novidades no Planalto Central, o ciclo se completava e eu estava retornando para Campina Grande, Paraíba. Na bagagem, além da saudade, eu trazia uma vontade imensa de conhecer profundamente o estado onde nasci e uma mente transbordando ideias que logo ganhariam forma.

O verão de 1993 começava com uma voltagem diferente. Voltei para Campina Grande em uma manhã de sexta-feira, com o abraço da minha mãe e o corpo ainda sentindo o ritmo da viagem, mas a mente já estava quilômetros à frente. Mal desfiz as malas e já organizava o essencial para o encontro que definiria aquela década: Baía da Traição me esperava, e com ela, Sóstenes e Augusto, amigos que marcaram profundamente esse período.

Aquele verão na Baía foi o laboratório de uma visão de mundo que precisava ser mostrada. Estávamos imersos em literatura cyberpunk, cangaço, coronéis e munidos de câmeras fotográficas, cruzando municípios para capturar a alma, o povo e as paisagens da Paraíba. Era o tempo do “click” medido; cada foto era um exercício de paciência e precisão, condicionado pelo custo das caixas de filmes e pela limitação dos quadros. Cada revelação era uma expectativa.

Na volta para a Borborema, a bagagem pesava não de roupas, mas de planos. Entre debates e viagens, optamos por uma publicação com formato de ZINE, com alta qualidade gráfica e linha editorial artística e jornalística. Assim nasceu a Revista Osmose — o nome simbolizava a passagem do menos concentrado para o mais concentrado. A Osmose tornou-se o alto-falante da nossa geração, unindo rock, geopolítica, fotografia e turismo, provando que éramos capazes de produzir nossa própria história.

Formamos uma verdadeira irmandade produtiva. Eu e Sóstenes nos dividíamos entre a escrita, o desenho, a fotografia e a busca por apoio financeiro; Augusto somava com seus textos e lentes. Foi nesse turbilhão criativo que os caminhos do design e do jornalismo se abriram definitivamente para mim. Não apenas relatávamos a cultura, nós a provocávamos, realizando eventos como o primeiro campeonato paraibano de skate no Parque do Povo, onde desenhei e pintei os obstáculos da pista.

Foram dois anos de uma alegria técnica e artística sem precedentes. Movimentamos o esporte, a comunicação e as nuances da nossa região. Redescobrir a Paraíba em 1993 e 1994 me ensinou que o propósito ganha força quando é compartilhado. Ao lado de irmãos de jornada, deixamos de ser apenas observadores do horizonte para nos tornarmos os designers da nossa própria realidade.

 

 

 

 

Capa da Revista Osmose, edição especial de Março/Abril de 1995, em comemoração a “Um Ano do Projeto Osmose”. A estética de fanzine em preto e branco captura a efervescência cultural e a produção independente da época.

A foto central, mostra a “irmandade criativa” que idealizou o projeto:

  • Sérgio Melo: De pé à esquerda, Sostenes: De pé sobre uma estrutura de pedra (o Cruzeiro), Augusto: Sentado sobre a mesma estrutura de pedra.

O cenário é o Cruzeiro na cidade de Aroeiras, Paraíba, um ponto elevado que oferece uma vista panorâmica da cidade e das colinas ao fundo, sob um céu dramático e nublado. Esta imagem simboliza o espírito de exploração, registro cultural e ação criativa que definiu a Revista Osmose e sua geração em Campina Grande nos anos 90.

 

 

Sérgio Melo: De pé à esquerda, Sostenes: De pé sobre uma estrutura de pedra (o Cruzeiro), Augusto: Sentado sobre a mesma estrutura de pedra.

 

 

 

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