Cumaru resiste no sertão paraibano e mobiliza ciência para evitar o desaparecimento de uma árvore da Caatinga

Por Sérgio Melo

 

No sertão paraibano, a conservação de árvores ameaçadas de extinção ganhou um aliado importante: a união entre pesquisa científica, comunidades rurais e conhecimento sobre a Caatinga. Entre essas espécies está o cumaru, ou umburana-de-cheiro (Amburana cearensis), encontrado em áreas do semiárido paraibano e alvo de ações de conservação coordenadas pelo Jardim Botânico Professor Ivan Coelho Dantas, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em parceria com outras instituições.

A iniciativa começou em 2022 e reúne levantamento de campo, georreferenciamento, produção de mudas, estudos de germinação, educação ambiental e participação comunitária. O objetivo é conhecer melhor as populações existentes e ampliar as possibilidades de conservação da espécie em seu próprio habitat. O trabalho integra o Projeto Cumaru, financiado pela Botanic Gardens Conservation International (BGCI) e pela Fundação Franklinia.

 

O sertão ainda guarda árvores que precisam ser protegidas

Quando atravessamos a Caatinga, é fácil imaginar que a paisagem seca representa ausência de vida. Na realidade, ocorre justamente o contrário.

A vegetação do semiárido reúne espécies altamente adaptadas à irregularidade das chuvas. Muitas delas possuem importância ecológica, econômica, medicinal e cultural.

Por isso, encontrar uma árvore rara em meio à paisagem sertaneja significa muito mais do que registrar uma ocorrência botânica.

Significa identificar uma parcela da memória ecológica daquele território.

O próprio Inventário Florestal Nacional registra no território paraibano espécies de interesse para conservação. Entre elas estão o cumaru, aroeira, braúna, pau-d’arco-roxo e sucupira. Entretanto, nem todas apresentam atualmente a mesma categoria de risco.

Essa distinção é fundamental. Uma espécie pode estar presente no sertão e, ainda assim, enfrentar forte pressão local.

 

O Cumaru ocupa um lugar especial nessa história

O Amburana cearensis é conhecido no Nordeste por nomes como cumaru e umburana-de-cheiro.

A espécie ocorre em diferentes estados brasileiros e também em outros países da América do Sul. Na Paraíba, aparece associada a ambientes da Caatinga e outras formações vegetais estacionais.

Segundo o Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora), a espécie está classificada como Quase Ameaçada (NT) na avaliação consultada.

O diagnóstico chama atenção para a pressão histórica sobre grandes árvores. O corte seletivo é apontado como uma das principais ameaças à espécie.

Além disso, o CNCFlora registra a presença do cumaru na RPPN Fazenda Tamanduá, em Santa Terezinha, no sertão paraibano.

Há, porém, uma informação ainda mais importante.

A avaliação do CNCFlora também registra que a espécie foi considerada Em Perigo (EN) pela Lista Vermelha da IUCN utilizada naquele diagnóstico. Isso mostra como diferentes avaliações e períodos podem apresentar categorias distintas.

Portanto, não é correto tratar todas as árvores citadas popularmente como “em extinção” sem verificar a classificação e a fonte.

 

A Serra das Flechas virou um laboratório de conservação

Um dos lugares associados ao trabalho de campo do Projeto Cumaru está na região de Pedra Lavrada.

Ali, a Serra das Flechas reúne paisagem rochosa, inscrições rupestres, fontes naturais e vegetação adaptada ao semiárido. O local também abriga árvores utilizadas como referência para pesquisas sobre o cumaru.

É nesse cenário que a conservação deixa de ser apenas uma ideia distante.

Cada árvore localizada pode ser registrada, fotografada e georreferenciada.

Esse procedimento cria uma espécie de mapa vivo da espécie.

No Projeto Cumaru, o levantamento de campo foi utilizado justamente para identificar árvores matrizes em diferentes localidades da Paraíba. Entre os municípios envolvidos estão Pedra Lavrada, Olivedos e Patos.

 

Georreferenciar uma árvore também é contar a história do território

Para mim, esse é um dos aspectos mais interessantes desse trabalho.

Ao registrar as coordenadas de uma árvore, não estamos apenas criando um ponto em um mapa.

Estamos documentando onde aquela espécie conseguiu sobreviver.

Também podemos observar sua relação com estradas, propriedades rurais, cursos d’água, áreas de cultivo e fragmentos de vegetação nativa.

Esse tipo de informação ajuda pesquisadores e gestores ambientais a compreender melhor a distribuição das populações.

Além disso, permite planejar ações de coleta de sementes, produção de mudas e restauração ecológica.

O trabalho desenvolvido no Projeto Cumaru inclui justamente essa combinação entre pesquisa de campo, georreferenciamento, comunicação ambiental e conservação.

 

A conservação começa antes de plantar uma muda

É comum imaginar que preservar uma árvore significa simplesmente produzir mudas e plantá-las.

Na prática, o processo é muito mais complexo.

Primeiro, é necessário conhecer a espécie.

Depois, identificar indivíduos saudáveis e geneticamente relevantes.

Em seguida, coletar sementes de maneira adequada.

Também é necessário compreender como essas sementes germinam e como as mudas respondem às condições ambientais.

O Projeto Cumaru desenvolveu protocolos de germinação e passou a produzir mudas no viveiro do Jardim Botânico da UEPB. A iniciativa também avançou para o plantio em comunidades da Caatinga paraibana.

Assim, a conservação acontece tanto ex situ, em viveiros e coleções, quanto in situ, no ambiente natural.

Essa combinação aumenta as possibilidades de sobrevivência da espécie.

 

Comunidades rurais são parte da solução

Nenhum projeto de conservação consegue resultados duradouros quando ignora quem vive no território.

Na Caatinga, essa questão é ainda mais evidente.

As comunidades rurais conhecem os ciclos das plantas, os locais de ocorrência e os usos tradicionais de muitas espécies.

Por isso, o Projeto Cumaru trabalha também com educação ambiental e participação comunitária.

A experiência registrada pelo projeto mostra moradores envolvidos no cuidado das mudas e no acompanhamento das áreas plantadas.

Esse modelo tem uma força especial.

Ele transforma a árvore protegida em patrimônio coletivo.

E, quando uma comunidade reconhece determinada espécie como parte de sua própria história, a conservação ganha outra dimensão.

 

Aroeira, braúna e outras espécies também exigem atenção

O cumaru não está sozinho.

A Caatinga paraibana possui diversas árvores que sofreram historicamente com retirada de madeira, alteração do habitat e outras pressões.

A aroeira-do-sertão (Myracrodruon urundeuva), por exemplo, possui ocorrência registrada na Paraíba e tem uma longa história de uso madeireiro e medicinal.

Um estudo realizado em comunidade rural de São José de Piranhas registrou 207 indivíduos de aroeira durante levantamento de campo. O trabalho também apontou que os usos madeireiros e não madeireiros podem pressionar as populações naturais da espécie.

A situação atual, entretanto, precisa ser interpretada com cuidado.

O CNCFlora classifica atualmente a espécie na avaliação consultada como Menos Preocupante (LC). Isso não significa que populações locais estejam livres de ameaça. O próprio diagnóstico destaca a necessidade de monitoramento e manejo sustentável.

A mesma cautela vale para a braúna (Schinopsis brasiliensis).

O CNCFlora a classifica como Menos Preocupante (LC), embora reconheça pressão relacionada ao uso da madeira e riscos associados a alterações ambientais. A invasão por algarobeira também aparece como uma ameaça relevante em determinados ambientes.

 

Preservar a árvore também significa preservar cultura

No Nordeste, algumas árvores ultrapassam a dimensão ecológica.

Elas estão presentes na medicina tradicional, na culinária, nas histórias familiares, nos nomes de lugares e na memória das comunidades.

O cumaru é um exemplo emblemático.

Seu cheiro, suas sementes e sua presença na paisagem fazem parte de uma relação cultural construída ao longo de gerações.

Por isso, a conservação ambiental pode dialogar diretamente com a cultura nordestina.

Um cordel, uma fotografia, uma reportagem ou uma ação de educação ambiental podem ajudar a transformar conhecimento científico em memória compartilhada.

Essa aproximação entre ciência e cultura é particularmente importante na Caatinga.

Afinal, proteger uma espécie também significa preservar os conhecimentos que foram construídos em torno dela.

 

A fotografia ajuda a tornar a conservação visível

Durante trabalhos de campo, a fotografia possui uma função que vai além do registro estético.

Ela pode documentar características morfológicas, acompanhar o desenvolvimento de indivíduos e criar um arquivo visual das áreas pesquisadas.

No Projeto Cumaru, esse registro esteve associado ao trabalho de campo, ao georreferenciamento e à comunicação ambiental.

É uma forma de mostrar ao público aquilo que normalmente permanece distante.

Uma árvore isolada no sertão pode parecer apenas mais uma árvore.

Quando conhecemos sua história, entretanto, ela passa a representar uma espécie, um ecossistema e uma possibilidade de futuro.

 

Símbolo de resistência e vida, um Cumaru solitário estende seus galhos sob o céu azul vasto e nuvens de algodão, protegendo ninhos em meio à Caatinga ressequida. Fotografia de Sérgio Melo

 

A Caatinga precisa ser vista como patrimônio vivo

Durante muito tempo, a Caatinga foi apresentada principalmente pela imagem da seca.

Essa visão é insuficiente.

O bioma possui enorme diversidade e uma flora especializada para sobreviver às condições do semiárido.

A conservação, portanto, não deve acontecer somente quando uma espécie está próxima do desaparecimento.

Ela precisa começar antes.

Isso significa proteger remanescentes de vegetação nativa, reduzir a retirada ilegal de madeira, fortalecer unidades de conservação, apoiar pesquisas e estimular sistemas produtivos compatíveis com o ambiente.

Também significa valorizar quem vive no território.

 

O futuro dessas árvores depende de escolhas feitas agora

A experiência do Projeto Cumaru demonstra que a conservação pode ser construída a partir de uma rede.

Universidade, organizações da sociedade civil, instituições internacionais, pesquisadores e comunidades podem trabalhar juntos.

A iniciativa coordenada pela GAEA e pela UEPB, com apoio da BGCI e da Fundação Franklinia, é apresentada pela BGCI como uma ação integrada envolvendo ciência, comunidade e cultura.

Esse modelo merece atenção.

Afinal, proteger uma árvore ameaçada não é apenas salvar um indivíduo.

É preservar diversidade genética.

É manter relações ecológicas.

É proteger paisagens.

É conservar conhecimentos tradicionais.

E, sobretudo, é garantir que as próximas gerações ainda possam encontrar no sertão paraibano árvores que hoje resistem silenciosamente às pressões sobre a Caatinga.

Quando uma comunidade planta um cumaru, portanto, não está apenas colocando uma muda no chão.

Está plantando memória, biodiversidade e futuro.

 

Por Sérgio Melo, jornalista e gestor ambiental

 

 

 

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