Alunos da Escola dos Sonhos em aula de Educação Ambiental, cidade de Bananeiras, Brejo paraibano. Foto: Sérgio Melo

Educação ambiental avança no Nordeste, mas ainda esbarra em um desafio decisivo: virar prioridade de município e escola privada

Por Sérgio Melo

 

O Nordeste brasileiro tem acelerado iniciativas de educação ambiental — dentro e fora das salas de aula —, mas o avanço ainda acontece de forma desigual. Em uma região que convive historicamente com secas, eventos extremos, pressão sobre mananciais, resíduos sólidos mal geridos e perda de biodiversidade, educação ambiental não é “tema extra”: é estratégia de sobrevivência, saúde pública e desenvolvimento territorial.

A boa notícia é que a agenda está mais clara do que nunca. A má notícia é que muitos sistemas de ensino ainda tratam o assunto como ação pontual, dependente de projetos isolados, sem orçamento, sem rotina pedagógica e sem indicadores. E isso cobra um preço alto: o Brasil ainda tem um contingente expressivo de escolas que não realizam atividades de educação ambiental — 34,2% segundo análise baseada nos microdados do Censo Escolar 2024.

 

Por que os municípios precisam entrar de vez nessa agenda

Quando a educação ambiental não é estruturada como política municipal, o resultado aparece rapidamente em problemas concretos: descarte irregular de resíduos, pontos crônicos de lixo, queimadas urbanas e rurais, contaminação de solos e rios, aumento de vetores, enchentes por drenagem obstruída, desperdício de água e conflitos pelo uso do território.

Município que investe em educação ambiental investe, ao mesmo tempo, em prevenção. O que se ensina na escola transborda para a casa, para a rua e para a comunidade. Crianças e adolescentes passam a compreender o ciclo do lixo, o impacto de uma embalagem no chão, o custo real de uma torneira aberta e a relação direta entre saneamento e saúde.

E há um ponto que o Nordeste conhece bem: grande parte das escolas brasileiras está em contextos de infraestrutura limitada, especialmente nas redes municipais e em escolas pequenas — e o Nordeste concentra 22% das escolas de pequeno porte do país, o que exige soluções pedagógicas adaptadas e políticas de apoio mais consistentes.

 

Por que escolas privadas também precisam investir — e com método

No setor privado, educação ambiental já não pode ser tratada como “selo verde” ou ação de marketing. Pais e estudantes exigem coerência, e o mercado educacional valoriza escolas que conseguem demonstrar competências socioambientais na prática: projetos contínuos, redução de resíduos, uso racional de água e energia, hortas pedagógicas, laboratórios maker (“faça você mesmo”) com reúso, parcerias com catadores e visitas de campo com intencionalidade curricular.

Isso se traduz em diferencial de marca, reputação e competitividade — mas, principalmente, em formação integral.

 

O que as pesquisas mostram: melhora comportamento, engaja famílias e pode favorecer aprendizagem

Quando a educação ambiental é bem aplicada, não se limita à “aula sobre meio ambiente”; ela reorganiza hábitos e amplia repertórios de cidadania. Estudos de revisão sobre aprendizagem ao ar livre e experiências estruturadas na natureza apontam benefícios mensuráveis para dimensões sócioemocionais, bem-estar e aspectos acadêmicos, além de fortalecer vínculo com o território e atitudes pró-ambientais.

Na prática, escolas que adotam projetos ambientais consistentes relatam:

  • Maior participação das famílias em campanhas de separação de resíduos e reaproveitamento;
  • Protagonismo estudantil em ações comunitárias (mutirões, hortas, compostagem);
  • Melhoria de convivência e cooperação em projetos coletivos;
  • Aprendizagem mais significativa quando o conteúdo dialoga com problemas reais do entorno.

O próprio debate nacional reconhece a urgência: a inclusão de perguntas específicas sobre educação ambiental no questionário do Censo Escolar é um sinal de que o tema passa a ser monitorado e cobrado por dados — e onde há dado, há possibilidade de política pública mais séria.

 

E no Nordeste? Avanços existem, mas investimento ainda é irregular

Há experiências fortes no Nordeste, especialmente quando educação ambiental se articula com agroecologia, convivência com o semiárido, recuperação de nascentes, saneamento rural, escolas do campo e projetos de juventude. Ainda assim, análises acadêmicas apontam um gargalo recorrente: falta de investimento consistente e escassez de editais específicos e contínuos para sustentar programas de educação ambiental na região, o que aprofunda desigualdades quando comparada a outras regiões com maior diversidade de iniciativas.

O recado é direto: não basta celebrar projetos. É preciso garantir continuidade.

 

A lei já determina: educação ambiental deve estar no ano letivo, de forma integrada e permanente

A obrigação legal existe há décadas e não depende da boa vontade de um gestor ou do entusiasmo de um professor isolado.

1) Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA) – Lei nº 9.795/1999
A lei estabelece a educação ambiental como prática integrada, contínua e permanente em todos os níveis e modalidades do ensino formal.

2) Decreto nº 4.281/2002
Regulamenta a Lei nº 9.795/1999 e organiza diretrizes de implementação.

3) Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental – Resolução CNE/CP nº 2/2012
Define parâmetros para que sistemas de ensino e instituições observem a educação ambiental na educação básica e superior, orientando implementação no currículo.

4) BNCC e Temas Contemporâneos Transversais (TCTs)
O MEC orienta a inserção de temas contemporâneos transversais no currículo — entre eles, o campo de “Meio Ambiente”, reforçando o tratamento transversal e contextualizado.

Em outras palavras: educação ambiental não é “projeto opcional”. Ela precisa estar planejada no currículo, no calendário e no cotidiano escolar.

 

O que fazer, na prática: um caminho viável para municípios e escolas privadas

Para sair do discurso e entrar na execução, há um roteiro possível e realista:

  1. Plano anual de educação ambiental com metas simples (água, resíduos, consumo, biodiversidade local).
  2. Formação continuada de professores (metodologias ativas, projeto investigativo, território como sala de aula).
  3. Infraestrutura mínima de prática (coleta seletiva funcional, horta/compostagem, monitoramento de consumo de água).
  4. Parcerias locais (universidades, jardins botânicos, catadores, ONGs, secretarias de meio ambiente).
  5. Indicadores e prestação de contas (quantidade de resíduos desviados, ações por turma, campanhas, participação familiar).

O cidadão do futuro já está entre nós

O Nordeste não precisa esperar uma “solução mágica” vinda de fora. O cidadão do futuro já está caminhando hoje pelos corredores das escolas — e ele aprende, com rapidez, quando o ensino faz sentido para a vida real.

Educação ambiental é isso: formar gente capaz de cuidar do lugar onde vive, entender que lixo não “some”, que água não é infinita, que natureza não é cenário — é condição para existir. Quando municípios e escolas privadas assumem essa missão com seriedade, o resultado não é apenas ambiental: é social, cultural, econômico e humano.

Porque, no fim, a pergunta não é se podemos investir em educação ambiental. É se podemos continuar sem ela.

 

 

 

Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental. Coordenador de projetos de Educação Ambiental no portal Paraíba Cultural e no Q-Ideia – Design e Comunicação. Atua em ações integradas de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento territorial no Estado da Paraíba.

 

 

 

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