Encontro da Regional Sul da RBJB fortalece cooperação entre Jardins Botânicos e define prioridades para conservação da flora
Reunião realizada nos dias 20 e 21 de agosto, em Porto Alegre, reuniu instituições de diferentes perfis e resultou em carta conjunta com propostas para conservação, capacitação, mudanças climáticas e revisão da normativa dos Jardins Botânicos
Por Sérgio Melo
Fortalecer a cooperação entre instituições, compartilhar conhecimentos e construir estratégias conjuntas para a conservação da flora brasileira. Esses foram alguns dos principais objetivos do Encontro da Regional Sul da Rede Brasileira de Jardins Botânicos (RBJB), realizado nos dias 20 e 21 de agosto de 2026, no Jardim Botânico de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
O encontro reuniu representantes de Jardins Botânicos e instituições participantes da Regional Sul em um momento dedicado à apresentação de estruturas, coleções, projetos, atividades, dificuldades e perspectivas. A diversidade das instituições presentes revelou também a riqueza de competências existentes na região, que reúne jardins municipais, universitários, comunitários e privados sem fins lucrativos, além de instituições consolidadas, jardins recentemente criados e iniciativas ainda em implantação.
Ao final da reunião, os participantes elaboraram uma Carta do Encontro da Regional Sul da RBJB 2026, encaminhada à Diretoria da Rede Brasileira de Jardins Botânicos. O documento reúne as principais discussões, preocupações e propostas construídas coletivamente durante os dois dias de atividades.
Diversidade institucional como força para a conservação
Um dos aspectos destacados na carta foi justamente a diversidade de experiências existentes entre os Jardins Botânicos da Regional Sul.
As instituições apresentam diferentes estruturas e níveis de desenvolvimento, mas também reúnem competências que podem ser complementares. Entre elas estão a gestão de coleções, manutenção de herbários, coleta e produção de sementes e mudas, conservação de espécies ameaçadas, educação ambiental, pesquisa, acessibilidade, interpretação, visitação e captação de recursos.
Para os participantes, essa diversidade deve ser compreendida como uma oportunidade de ampliar a cooperação regional.
A proposta é transformar conhecimentos e experiências já existentes em uma rede de colaboração mais permanente, na qual os jardins possam compartilhar não apenas informações, mas também capacidades técnicas, equipamentos, metodologias e experiências de gestão.
Projetos conjuntos para conservação da flora
Entre as prioridades apontadas durante o encontro está o desenvolvimento de projetos conjuntos e modulares voltados à conservação da flora.
A agenda inclui ações relacionadas à coleta e ao intercâmbio de material vegetal de procedência conhecida, conservação ex situ, qualificação das coleções botânicas, conservação de espécies ameaçadas, produção de mudas e apoio à restauração ecológica.
Essas propostas dialogam diretamente com temas que estiveram presentes na concepção do encontro, como restauração, sementes e mudas, expedições conjuntas, equipamentos, herbários e comunicação.
A ideia de projetos modulares também pode permitir que diferentes jardins participem de acordo com suas capacidades, estruturas e necessidades, ampliando as possibilidades de cooperação e de busca por financiamento.

Capacitação e intercâmbio entre os próprios Jardins Botânicos
Outro encaminhamento importante foi a realização de um levantamento regional das competências e necessidades de capacitação de cada Jardim Botânico.
A proposta parte de uma lógica simples: antes de buscar conhecimento fora da própria rede, é preciso identificar o conhecimento que já existe dentro dela.
O diagnóstico deverá apontar quais competências cada instituição pode compartilhar e quais áreas precisam ser desenvolvidas. A partir desse levantamento, os participantes sugerem a criação de uma agenda permanente de capacitações, visitas técnicas e intercâmbios.
A carta também defende que futuros projetos contemplem recursos para o deslocamento dos profissionais dos próprios jardins, permitindo que experiências e conhecimentos circulem efetivamente pela Regional Sul.
Além da capacitação, foram identificadas demandas relacionadas à pesquisa, documentação e gestão das coleções, equipamentos, sinalização, acessibilidade, interpretação ambiental, turismo e comunicação.
Nesse contexto, a visibilidade dos Jardins Botânicos também foi apontada como uma questão estratégica, especialmente diante do que os participantes definem como uma espécie de “invisibilidade botânica”.
Jardins Botânicos diante das mudanças climáticas
A intensificação dos eventos climáticos extremos trouxe outro tema central para o encontro: o papel dos Jardins Botânicos diante das mudanças climáticas.
A discussão envolve duas frentes complementares. De um lado, a contribuição dessas instituições para a conservação da biodiversidade e o apoio à restauração. De outro, a necessidade de preparar os próprios jardins para enfrentar eventos extremos capazes de afetar visitantes, trabalhadores, infraestrutura e coleções.
Nesse sentido, a Regional Sul propôs o desenvolvimento de protocolos de contingência e segurança, capazes de orientar a atuação das instituições em situações de emergência.
A medida reconhece que os Jardins Botânicos precisam estar preparados não apenas para conservar a flora em condições normais, mas também para responder a um cenário ambiental cada vez mais marcado por eventos extremos.
Revisão da normativa entra no centro das preocupações
Um dos temas de maior relevância institucional apresentado na carta foi a revisão da normativa federal aplicável aos Jardins Botânicos.
A Regional Sul considera importante que uma nova regulamentação seja suficientemente abrangente para contemplar a diversidade dos Jardins Botânicos brasileiros, permitindo que instituições pequenas, recentes ou ainda em processo de estruturação possam se desenvolver, buscar reconhecimento e futuramente acessar políticas públicas e fontes de financiamento.
Ao mesmo tempo, os participantes alertam que essa flexibilização não deve significar a perda das condições institucionais já conquistadas pelos jardins consolidados.
A carta defende, nesse sentido, o princípio da não regressividade institucional, para que estruturas, equipes, coleções, pesquisa, educação e outras funções essenciais já consolidadas não sejam enfraquecidas em decorrência da nova regulamentação.
A Regional Sul propõe que a Diretoria da RBJB encaminhe manifestação ao Ministério do Meio Ambiente durante o processo de revisão normativa, buscando conciliar a inclusão e o desenvolvimento progressivo dos diferentes jardins com a proteção das capacidades institucionais já existentes.
Critérios claros e verificáveis
Outro ponto levantado pelos participantes é a necessidade de que a nova regulamentação estabeleça critérios mínimos claros, objetivos e verificáveis.
Segundo a carta, definições muito genéricas sobre funções como educação ambiental, pesquisa e conservação podem ser insuficientes para caracterizar efetivamente essas atividades e dificultar sua defesa perante gestores públicos.
A proposta é que os requisitos sejam definidos de maneira objetiva, mas preservando uma flexibilidade compatível com o porte, a natureza institucional e o estágio de desenvolvimento de cada Jardim Botânico.
Também foram destacadas questões relacionadas à responsabilidade técnico-científica e à curadoria das coleções, além da necessidade de preservar as funções essenciais dos Jardins Botânicos diante de eventuais concessões ou mudanças de gestão.
Visibilidade e reconhecimento público
A comunicação institucional também apareceu como parte importante das discussões.
Os participantes consideram necessário ampliar a divulgação dos Jardins Botânicos e propõem que o Governo Federal mantenha e divulgue permanentemente uma relação oficial e atualizada dos Jardins Botânicos reconhecidos no Brasil.
A medida poderia contribuir para ampliar o reconhecimento público dessas instituições, favorecer a visitação e fortalecer sua valorização pela sociedade.
Essa preocupação está diretamente relacionada ao desafio de aproximar os Jardins Botânicos da sociedade. Afinal, conservar a flora também significa criar condições para que as pessoas conheçam, compreendam e valorizem a biodiversidade.
Seis encaminhamentos para a Regional Sul
A carta conjunta apresenta seis principais encaminhamentos resultantes do encontro.
O primeiro é a manifestação da RBJB ao Ministério do Meio Ambiente sobre a revisão da normativa, considerando critérios objetivos, desenvolvimento progressivo dos jardins e a não regressividade das estruturas e funções já consolidadas.
O segundo prevê um levantamento regional de competências, necessidades de capacitação, infraestrutura e equipamentos.
O terceiro propõe o fortalecimento do intercâmbio técnico e das capacitações entre os próprios Jardins Botânicos.
O quarto trata do desenvolvimento de ações relacionadas à conservação da flora, coleções, mudanças climáticas, contingência, pesquisa, educação, visitação e comunicação.
O quinto encaminhamento prevê a realização de uma rodada de avaliação do Plano de Ação para os Jardins Botânicos.
Por fim, o sexto propõe a continuidade da construção de projetos regionais conjuntos e modulares, com a busca de oportunidades de financiamento voltadas à conservação, ao fortalecimento institucional e ao apoio à restauração ecológica.
Uma rede mais conectada para enfrentar desafios comuns
Mais do que registrar preocupações, a Carta do Encontro da Regional Sul apresenta uma agenda de cooperação.
A proposta é aproveitar as diferentes capacidades existentes entre os jardins para construir uma atuação regional mais integrada, compartilhando conhecimento, promovendo capacitações, desenvolvendo projetos conjuntos e buscando novas oportunidades de financiamento.
Essa perspectiva ganha importância diante da dimensão dos desafios enfrentados pela conservação da biodiversidade. Nenhuma instituição, isoladamente, possui todas as respostas ou todos os recursos necessários. A cooperação permite justamente aproximar competências diferentes em torno de objetivos comuns.
Ao final do documento, os participantes reafirmam a disposição de fortalecer a cooperação regional e contribuir ativamente para a atuação da RBJB, reconhecendo os Jardins Botânicos como instituições fundamentais para a conservação da flora, produção de conhecimento, educação e aproximação da sociedade com a biodiversidade brasileira.

Porto Alegre como ponto de partida para uma nova etapa
O encontro realizado em Porto Alegre deixa como principal resultado uma agenda construída coletivamente.
Ao reunir instituições com diferentes histórias, estruturas e experiências, a Regional Sul demonstrou que a diversidade também pode ser uma força quando existe disposição para compartilhar conhecimentos e construir soluções em conjunto.
A carta apresentada à Diretoria da RBJB transforma essa disposição em propostas concretas: capacitar, intercambiar, conservar, pesquisar, comunicar, preparar os jardins para eventos extremos, fortalecer as coleções e discutir uma regulamentação capaz de reconhecer diferentes realidades sem enfraquecer as conquistas já alcançadas.
Para quem acompanha a trajetória dos Jardins Botânicos brasileiros, esse movimento revela uma questão essencial: conservar a flora não significa apenas proteger espécies. Significa também fortalecer as instituições responsáveis por esse trabalho e garantir que elas tenham condições de cumprir sua missão.
Em Porto Alegre, nos dias 20 e 21 de agosto, a Regional Sul deu mais um passo nessa direção.
Por Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental