Expedições Cariri Cangaço percorre o Sertão da Paraíba e revisita a história de Chico Pereira
Sempre me chama atenção como o Sertão guarda histórias que não cabem apenas nos livros. Elas estão nas paisagens, nas fazendas antigas, nos silêncios e nas conversas que atravessam gerações. É justamente esse reencontro com a memória viva que o Expedições Cariri Cangaço propõe entre os dias 05 e 07 de fevereiro de 2026, passando por Sousa, Uiraúna, Nazarezinho e Aparecida, no alto Sertão paraibano.
Nesta edição, o roteiro lança um olhar atento sobre a trajetória de Francisco Pereira Dantas, o Chico Pereira, personagem central de um dos períodos mais turbulentos da história nordestina. Diferente das figuras mais conhecidas do cangaço, Chico Pereira construiu um caminho marcado menos pelo mito e mais por conflitos reais, políticos e familiares, que ajudam a entender a complexidade do sertão das décadas iniciais do século XX.
Filho do Coronel João Pereira, figura influente de Nazarezinho, então distrito de Sousa, Chico Pereira ingressou no cangaço após o assassinato do pai, morto na Fazenda Jacu, durante um embate ligado às disputas políticas da época e à construção do Açude de São Gonçalo. Segundo relatos familiares, o Coronel teria morrido clamando “Vingança não!”, frase que mais tarde daria título a um dos livros mais conhecidos sobre o tema.
O texto do pesquisador Romero Cardoso ajuda a compreender o contexto em que Chico Pereira se insere: uma justiça seletiva, alinhada aos interesses das oligarquias da chamada República Velha, acabou alimentando conflitos armados e fortalecendo o banditismo rural. A libertação do único sobrevivente do atentado contra o Coronel João Pereira foi o estopim para uma sequência de episódios violentos que culminaram, inclusive, na invasão de Sousa pelo bando de Lampião.
Ao visitar cidades e locais históricos ligados a essa narrativa, como a própria Fazenda Jacu, o Expedições Cariri Cangaço vai além da reconstituição factual. A proposta é compreender o cangaço como fenômeno social, político e cultural, refletindo sobre suas marcas no território, na memória coletiva e na identidade sertaneja.
Para quem se interessa por história, cultura popular e pelos caminhos menos óbvios do Nordeste, a expedição se apresenta como uma oportunidade rara de aprendizado e vivência. A programação completa está disponível no link da bio e nos stories do projeto, reunindo palestras, visitas técnicas e encontros com pesquisadores e apaixonados pelo tema.
Conhecer o Sertão por dentro é também uma forma de respeitar sua história, com todas as suas contradições. E iniciativas como essa ajudam a manter vivas narrativas que ainda dizem muito sobre quem somos.
Instagran: @cariricangaco