Guardiões da Comunidade: educação ambiental que transforma o Brejo paraibano
Por Sérgio Melo
Participar do Mutirão das Mini COPs – Guardiões das Comunidades, realizado pela Escola dos Sonhos, em Bananeiras (PB), foi uma das experiências mais significativas da minha trajetória na comunicação ambiental. Durante três dias de atividades intensas, pude testemunhar o poder transformador da educação quando ela nasce do território, escuta as infâncias e se envolve com as questões reais das comunidades.
Atuei na direção e registro audiovisual da ação, atendendo ao convite da gestora e fundadora da escola, Leila Rocha, que conduz um trabalho comunitário admirável no Brejo paraibano. A atividade integra o movimento nacional organizado pelo Instituto Alana e pelo PerifaLab para fortalecer o protagonismo infantojuvenil diante da crise climática, conforme previsto na proposta institucional do Mutirão das Mini COPs.
Este trabalho também dialoga diretamente com o projeto EcoCultural PB, iniciativa do Paraíba Cultural, que documenta ações de educação ambiental desenvolvidas no interior da Paraíba, ampliando o alcance desses conteúdos através do site e das redes digitais. O objetivo é conectar escolas, comunidades rurais e público urbano em torno de uma agenda comum de cuidado ambiental e responsabilidade coletiva.

Dia 1 – Reflexão e pertencimento na Escola dos Sonhos
O primeiro dia foi inteiramente dedicado à reflexão. Conversamos com as crianças sobre o planeta em crise, sobre a COP30 e sobre como os grandes acordos globais também dizem respeito a Bananeiras, à Rua do Campo e à Gruta da Luzia.
As falas das crianças revelavam uma clareza impressionante sobre lixo, queimadas, barulho, escassez de água e impactos diretos na vida da comunidade. A atividade trabalhou conceitos de corresponsabilidade, cidadania ambiental e direitos climáticos, preparando o terreno para o que viria a campo.
Com orientação da equipe da escola e de Guilherme Lima, responsável técnico pela oficina, os estudantes criaram crachás, desenhos e placas de sinalização com mensagens de alerta sobre descarte correto, queimadas e preservação das nascentes. As ideias nasceram de escuta e diálogo, respeitando a metodologia participativa prevista no projeto institucional.

Dia 2 – Mutirão na Rua do Campo: aprendizados com os pés na terra
O segundo dia nos levou até a comunidade da Rua do Campo, onde vivenciamos, junto às crianças e aos moradores, uma realidade comum a inúmeras áreas rurais do Brasil: lixo acumulado, falta de infraestrutura, coleta irregular, animais rasgando sacos e espalhando resíduos por toda a estrada.
“É obrigado as crianças saírem da escola para fazerem o trabalho que deveria ser do poder público”, apontou um morador durante a roda de conversa, trazendo uma reflexão necessária sobre responsabilidades compartilhadas — algo também evidenciado nos registros em campo.
As crianças assumiram a liderança da ação. Realizaram a coleta do lixo, instalaram a primeira placa educativa, dialogaram com famílias, e compreenderam, na prática, que proteger o território exige tanto atitude individual quanto políticas públicas eficientes.

Dia 3 – Gruta da Luzia: cultura, comunidade e o pacto ambiental
O terceiro dia aconteceu na Gruta da Luzia, território de grande simbologia cultural, onde a Dança do Lezô — patrimônio imaterial da comunidade — acolheu o grupo logo na chegada. Ali, na nascente que abastece diversas casas, o acúmulo de lixo representava risco ambiental e de saúde.
A roda de conversa com os moradores foi profunda, sincera e necessária. Mulheres, mães, trabalhadores rurais e crianças discutiram o ciclo do lixo, o medo da contaminação da água, a ausência de lixeiras adequadas e as falhas na coleta municipal. Os registros mostram depoimentos que ecoam a urgência de soluções comunitárias e públicas.
A partir dessas escutas, foi construído o Acordo dos Guardiões das Comunidades, documento no qual crianças e moradores pactuam compromissos ambientais, reafirmando valores como:
- cuidado com a fauna e flora,
- redução de resíduos,
- combate às queimadas,
- preservação das nascentes,
- diálogo com o poder público,
- responsabilidade individual e coletiva.
Com apoio da comunidade, emergiu também a proposta de construir um lixeiro de alvenaria na Gruta da Luzia — fruto direto do pacto estabelecido entre crianças, educadores e moradores.

Cultura, educação e afeto como política pública
Além das ações ambientais, vivenciamos momentos culturais marcantes: cantigas tradicionais, danças, acolhimento das famílias e a presença de lideranças locais como Tia Biba, guardiã da memória do território.
“A gente agradece às crianças… a missão agora é continuar”, disse uma moradora, consolidando um sentimento de continuidade e pertencimento que atravessou toda a ação.
Esse encontro entre educação, cultura e clima revela a força das infâncias como agentes de transformação. Cada fala, cada gesto, cada placa criada pelas crianças da Escola dos Sonhos demonstra que a solução para os desafios ambientais passa, necessariamente, pela escuta ativa dos territórios.
Do território para o mundo: o audiovisual como ponte
Registrar essa ação como documentário foi mais do que um trabalho — foi um encontro. Os vídeos transformam em linguagem sensível aquilo que as comunidades expressaram com tanta verdade. Funcionam como carta aberta sobre o problema do lixo e como manifesto pela justiça climática rural.
As produções estão disponíveis no canal do Paraíba Cultural:
📽️ Documentário 1 – Ações e Reflexões
https://www.youtube.com/watch?v=Y1xkWlJ89I4
📽️ Documentário 2 – Gruta da Luzia: Ação e Pacto Ambiental
https://www.youtube.com/watch?v=_KNk1LpYcHc
Esses vídeos funcionam como carta aberta sobre os desafios do lixo nas comunidades rurais e sobre a força das infâncias na construção de soluções reais.
EcoCultural PB: comunicar para transformar
Integrar essa experiência ao Projeto EcoCultural PB, do Paraíba Cultural, reforça nossa missão: produzir e difundir conteúdos socioambientais de qualidade, com foco no interior da Paraíba e em ações transformadoras que nascem das escolas e das comunidades.
Que este trabalho inspire outras iniciativas e fortaleça redes de educação ambiental em todo o estado.
Porque, como mostraram as crianças da Escola dos Sonhos, cuidar do planeta começa pelo território — e começa agora.
Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental. Coordenador de projetos de Educação Ambiental no portal Paraíba Cultural e no Q-Ideia – Design e Comunicação. Atua em ações integradas de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento territorial no Estado da Paraíba.


