O que está em jogo na nova consulta pública que vai mudar o seu dia a dia
Por Sérgio Melo
O Governo Federal abriu uma consulta pública decisiva na plataforma Brasil Participativo para definir a Estratégia Nacional de Soluções Baseadas na Natureza para Áreas Urbanas (ENSBN-Urbana). Em suma, a iniciativa convoca toda a sociedade civil a repensar a infraestrutura das cidades brasileiras, frente ao avanço das mudanças climáticas.
O processo ocorre em ambiente digital e já recebe contribuições de gestores, pesquisadores e cidadãos comuns. Portanto, a proposta visa substituir o concreto cinza por intervenções ecossistêmicas planejadas. Essa transformação afeta diretamente a temperatura do ar, o risco de enchentes e a saúde nas calçadas do país.
A engenharia das folhas: por que o concreto perdeu a batalha
Como técnico em gestão ambiental aqui no Agreste paraibano, sinto na pele o efeito sufocante das ilhas de calor. Consequentemente, vejo bairros inteiros impermeabilizados sofrerem com pancadas repentinas de chuva. O asfalto tradicional simplesmente não dá mais conta dos extremos do clima.
Nesse sentido, as Soluções Baseadas na Natureza representam uma quebra de paradigma necessária. Em vez de erguer galerias caras, criam-se jardins de chuva e parques lineares permeáveis. Dessa maneira, a própria terra retém a água e refrigera a vizinhança sem custos astronômicos.
Contudo, essa transição exige critérios técnicos rigorosos e profundo respeito às espécies nativas. Por isso, a Caatinga e os biomas regionais precisam liderar esse planejamento nas cidades nordestinas. Não basta apenas arborizar; é preciso plantar a vegetação certa para resistir às estiagens severas.

O frescor da rua também sustenta a nossa identidade
O verde urbano vai muito além do conforto térmico imediato nas vias públicas. Afinal, a identidade nordestina sempre brotou do convívio ao ar livre, das feiras livres aos acordes de forró sob as copas das praças. A paisagem ao redor molda o modo como a comunidade se encontra e cria arte.
Por essa razão, uma cidade sem árvores sufoca sua própria vocação cultural e comunitária. Quando o espaço público afasta as pessoas pelo calor extremo, a rua perde seu pulsar poético. Proteger a natureza urbana, portanto, é também salvaguardar o palco das nossas tradições.
Além disso, a democratização do verde combate desigualdades históricas gritantes dentro dos municípios. Bairros periféricos concentram as maiores temperaturas e os menores índices de cobertura vegetal. Levar infraestrutura verde para essas áreas promove justiça social e restaura a dignidade da população.
Como registrar a sua opinião antes que o prazo termine
Qualquer cidadão brasileiro pode acessar a plataforma oficial do Brasil Participativo e enviar propostas detalhadas. O formulário é intuitivo e permite comentar cada eixo temático da estratégia. Dessa forma, suas vivências diárias podem virar diretrizes nacionais de planejamento urbano.
Não podemos, sob hipótese alguma, terceirizar o desenho dos lugares onde vivemos, trabalhamos e criamos nossos filhos. Sendo assim, reserve dez minutos do seu dia para registrar sua visão no portal. Afinal, o futuro das nossas cidades começa no rascunho coletivo que estamos escrevendo hoje.