O Som do Pertencimento: As Sinfonias dos Ambulantes da Prata
Por Sérgio Melo
Caminhar com propósito é, antes de tudo, um ato de escuta profunda. É desacelerar o passo no presente para conseguir ouvir os ecos que o asfalto moderno tenta abafar. Quando fecho os olhos e sintonizo a memória na Campina Grande do início da década de 1980, o que me vem de volta não são apenas imagens em tons de sépia, mas uma verdadeira sinfonia urbana. Trazer de volta a infância é resgatar sensações, cheiros, sabores e, principalmente, a trilha sonora de uma cidade resiliente, onde as ruas de pedras de paralelipípedos faziam escoar as águas da chuva com a mesma fluidez com que corríamos livres. Éramos donos do tempo, criados soltos em ruas onde os pouquíssimos carros jamais ousavam roubar a paz dos nossos pais.
Ao longo do dia, aquele cenário de pedra recebia os personagens que povoavam o cotidiano do meu bairro. Alguns deles, a gente não via chegar; a gente escutava de longe. O comércio daquela época não dependia de telas ou algoritmos; ele se anunciava através do som de um instrumento musical ou de um sonoro grito de apresentação, oferecido de forma musical, cantada com rimas e melodias que permanecem cravadas na minha memória como patrimônio afetivo.
Tínhamos o clássico carro de picolé e sua indefectível corneta, seguida de um estridente “Olha o picoléeeee!”. No mesmo compasso da rua, surgia o vendedor de doce de coco — que na nossa Paraíba atende pelo batismo definitivo de “quebra-queixo”. Ele avançava com o cavalete de madeira montável em um ombro e a pesada caixa sobre a cabeça, equilibrada com precisão cirúrgica graças à “rodilha”: uma toalha devidamente enrolada em círculo para suavizar o peso do doce. De longe, o bairro já sabia: “Olha o doce! Olha o doce de coco!”. Era uma identidade sonora única. Ao parar, o ritual se repetia: armava o cavalete, pousava a caixa transmutada em mesa, abria o vidro e servia aquela joia açucarada, cortando-a com a espátula e entregando-a protegida por um papel retangular, cuidadosamente dobrado ao meio.
Personagens da nossa identidade
Nesse período, os vendedores ambulantes não entregavam apenas produtos; eles carregavam uma originalidade pulsante, uma necessidade de soar genuíno no chamado aos clientes. Havia quem trouxesse a própria poesia visual na estampa física, como o icônico “Pintado”. Homem albino, marcado por manchas na pele, ele ostentava um corpo que parecia ter saído de uma tela de Tarsila do Amaral ou de Cândido Portinari. Com o balaio de palha na cabeça transbordando a realeza da nossa terra, ele era o vendedor de abacaxi. Quando despontava na esquina, sua melodia arrastada e terna tomava conta do ar: “Olha o abacaxiiiiiii, olha o abacaxiiiiii, maduro e madurimmm… Olha o abacaxiiiiiii, maduro e docimmm”.
Todas as tardes, sem faltar um único dia, o compasso mudava com a chegada do vendedor de cavaco. Trazia uma grande lata cilíndrica nas costas, sustentada por alças que lembravam uma mochila, mas sua verdadeira assinatura era o tilintar metálico do triângulo, anunciando que a crocância estava passando.
E quando a tarde começava a se despedir, o ápice da sociabilidade do bairro acontecia com o vendedor de pão. Ele conduzia um carrinho de mão de madeira com tampa e trazia acoplada uma corneta peculiar, daquelas com balão de borracha que, ao ser apertado, emitia um som rouco e familiar. Ao levantar a tampa do carrinho, o aroma de fermentação e afeto invadia a calçada, revelando uma geografia de sabores: pão doce de gelo, pão de coco, pão francês, brote, carteira e seda.
A diversidade dos pães só não era maior que a riqueza das estampas bordadas ou pintadas nos panos de prato que cobriam os cestos das mulheres. Elas já aguardavam nos portões, portas e janelas com largos sorrisos e muitas conversas para colocar em dia. A hora de buscar o pão para o lanche da tarde ou para o jantar era o grande fórum comunitário do bairro.

O vento que centra o pertencimento
As ruas da década de oitenta eram vivas, povoadas por melodias cheias de regionalismo e singularidade. Era um tempo em que o espaço público tinha movimento social, comunitário e, fundamentalmente, familiar. As amizades que corriam nas calçadas funcionavam como uma extensão legítima das nossas casas. A vizinhança ali não era um mero acidente geográfico ou um designo de endereço; era sentido de família, de partilha e de absoluto pertencimento. O que se guardava dali, para onde quer que a vida nos levasse depois, era uma saudade saudável, uma ternura que preenchia a alma e nos dava chão.
Caminhar hoje com o propósito de registrar nossa cultura é entender que a modernidade nos trouxe pressa, mas nos roubou texturas. Era um tempo em que a rua José de Alencar, no coração do bairro da Prata, em Campina Grande, soprava um vento agradável de sociabilidade e liberdade democrática. Um vento limpo, que alimentava a nossa juventude com sonhos e uma vontade indomável de construir coisas novas. Coisas cheias de propósito. Coisas que, através da nossa arte e da nossa memória, nós nos recusamos a deixar silenciar.
