Reflorestamento da Caatinga: caminhos sustentáveis e ação civil
Panorama da sustentabilidade e o papel da sociedade civil no reflorestamento da Caatinga
Sou Sérgio Melo, gestor ambiental e jornalista, e venho acompanhando de perto os debates sobre sustentabilidade no semiárido nordestino, especialmente no que diz respeito à Caatinga paraibana — um bioma que carrego no coração pela sua singularidade e pela relação íntima com nossas comunidades e nossas histórias.
A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e abriga uma biodiversidade adaptada ao clima semiárido. Apesar disso, enfrenta uma pressão enorme: desmatamento, uso inadequado do solo e desertificação ameaçam sua resiliência e os serviços que ela presta, como o sequestro de carbono, regulação do solo e suporte à vida rural. Proteger a Caatinga não é apenas cuidar da natureza, é proteger modos de vida, saberes tradicionais e garantir resiliência climática para o Nordeste.
Investimentos e números relevantes
Nos últimos anos vimos um movimento mais robusto no sentido de direcionar recursos para conservação e restauração do bioma:
- Em 2025, foi anunciado um pacote de R$ 100 milhões em investimentos pelos bancos de desenvolvimento BNDES e Banco do Nordeste (BNB), com foco na preservação e recuperação da Caatinga como parte do Plano Brasil-Nordeste de Transformação Ecológica, lançado durante a COP30 — sendo R$ 50 milhões aportados por cada banco.
- A Sudene informou que o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) destinou R$ 100 milhões para ações ligadas ao bioma em 2025, mais que o triplo do valor executado em 2024, com linhas específicas voltadas à sustentabilidade ambiental e recuperação de áreas degradadas.
- Chamadas públicas e editais, como o Fundo Sustentabilidade 01/2025 do Banco do Nordeste, destinam recursos entre R$ 100 mil e R$ 500 mil por projeto para recuperação ambiental e uso sustentável da Caatinga, com prazos de execução de 24 a 36 meses.
- Em outra frente, uma chamada do BNDES e BNB financiou cerca de R$ 8,8 milhões para projetos de restauração ecológica do bioma, distribuídos em até quatro iniciativas que contemplam grandes áreas e integração com manejo sustentável.
Além dos valores, há programas de longo prazo, como o Floresta Viva do BNDES, que mira mobilizar até R$ 500 milhões em restauração ecológica ao longo de sete anos, potencialmente restaurando dezenas de milhares de hectares de vegetação nativa e sequestrando milhões de toneladas de CO₂ da atmosfera.
Como organizações civis podem acessar esses recursos
Organizações da sociedade civil — sejam ONGs ambientalistas, coletivos de base comunitária, associações rurais ou grupos informais estruturados — têm algumas rotas claras para acessar financiamento e parcerias:
- Participação em editais públicos, como os do Banco do Nordeste e do BNDES. Esses editais abrem chamadas regulares para projetos com foco em recuperação ambiental, uso sustentável e geração de renda a partir de modelos de restauração ecológica. Eles geralmente exigem:
- Cadastro institucional regular;
- Elaboração de projeto técnico com metas claras de impacto ambiental;
- Parcerias com universidades, serviços de extensão rural ou entidades técnicas que fortaleçam a proposta.
- Linhas de crédito e fundos sociais, como o FNE Verde, que financia iniciativas que promovam conservação, controle de erosão e restauração de áreas degradadas. Essas linhas podem se aplicar tanto a empreendimentos comunitários quanto a projetos de coletivos que gerem impacto socioambiental positivo.
- Parcerias com instituições já estabelecidas, como a Associação Caatinga, que tem experiência técnica e pode colaborar com capacitação, suporte na construção de projetos e mesmo articulação com financiadores maiores.
- Fomento via programas internacionais e fundos de clima — iniciativas como fundos de compensação de carbono (por exemplo, projetos alinhados aos ODS e mecanismos de crédito de carbono) também podem ser caminhos, especialmente para coletivos que integrem agricultura sustentável e restauração com geração de crédito ambiental.
A chave é entender que não existe um único caminho: muitas iniciativas combinam financiamento público, parcerias privadas e captação por meio de mecanismos verdes. A construção de redes com universidades, redes de ONGs e fóruns ambientais regionais ajuda a fortalecer as propostas e aumentar a chance de sucesso.
Exemplos que estão dando certo no Nordeste
Existem experiências que mostram como essa articulação pode funcionar:
- No semiárido nordestino, um projeto coordenado com apoio externo conseguiu combinar práticas agrícolas de baixo carbono, integração lavoura-pecuária-floresta e restauração de áreas degradadas com ganhos socioeconômicos para famílias rurais. Ao final de sua primeira fase, esse tipo de iniciativa registrou cerca de 200 hectares restaurados, aumento de renda média de 15% para famílias envolvidas e redução considerável das emissões de CO₂, articulando conhecimento técnico com ação local.
- Vemos também iniciativas comunitárias e de base que, mesmo sem grandes aportes financeiros, criam viveiros de espécies nativas, corredores ecológicos e programas de educação ambiental, conectando restauração à geração de renda e à identidade cultural das comunidades.
Porque isso importa agora
Falar de sustentabilidade sem olhar para o reflorestamento e a recuperação da Caatinga é perder de vista um dos pilares da resiliência ambiental no Nordeste. Cada parcela restaurada não é só mais árvores — é solo que segura água, biodiversidade que se refaz, carbono que deixa de ir para a atmosfera e comunidades que encontram novas fontes de renda e propósito. E se a sociedade civil se articular, essa agenda pode ganhar escala, ampliar vozes e transformar iniciativas isoladas em uma frente robusta de recuperação ecológica.
Caatinga em números e caminhos para a ação
A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e ocupa cerca de
10% do território nacional, concentrando-se majoritariamente no Nordeste.
Apesar de sua resiliência, estima-se que mais de 46% da vegetação original
já tenha sofrido algum grau de degradação.
- R$ 100 milhões anunciados em 2025 por BNDES e Banco do Nordeste
para ações de preservação e recuperação da Caatinga. - O Fundo Constitucional do Nordeste (FNE) destinou cerca de
R$ 100 milhões para projetos ligados ao bioma no mesmo ano. - Editais do Banco do Nordeste e do BNDES financiam projetos entre
R$ 100 mil e R$ 500 mil, com foco em restauração ecológica,
uso sustentável do solo e geração de renda local.
Organizações da sociedade civil, coletivos ambientais, associações comunitárias
e instituições privadas podem acessar esses recursos por meio de
editais públicos, fundos socioambientais e parcerias técnicas,
especialmente quando articulam conservação ambiental, impacto social e educação.
Fontes e leituras recomendadas
- Banco do Nordeste (BNB) – Editais e Fundo de Sustentabilidade
- BNDES – Programa Floresta Viva e chamadas para restauração ecológica
- Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene)
- Associação Caatinga – Projetos de conservação e manejo sustentável
- IBGE – Biomas brasileiros e dados ambientais
- Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA)
Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental. Coordenador de projetos de Educação Ambiental no portal Paraíba Cultural e no Q-Ideia – Design e Comunicação. Atua em ações integradas de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento territorial no Estado da Paraíba.
