Vila do Artesão no verão: sustentabilidade e economia criativa em Campina Grande

Verão em Campina Grande: como a Vila do Artesão pode transformar o esvaziamento urbano em oportunidade sustentável

 

Por Sérgio Melo

 

Todo ano, quando o verão se intensifica, Campina Grande vive um movimento previsível: a cidade esvazia. As férias escolares, o calor mais intenso e o desejo quase automático de ir ao litoral fazem com que boa parte da população se desloque para as praias paraibanas e de estados vizinhos. Ruas mais vazias, comércio desacelerado e uma sensação de “pausa” tomam conta da cidade.

Mas, ao caminhar pela Vila do Artesão nesse período, a pergunta surge de forma inevitável: como os artesãos e lojistas lidam com esse momento de baixa circulação? E, mais do que isso, como o poder público e o setor empresarial podem inovar para transformar o verão em uma oportunidade, e não apenas em um desafio?

A Vila do Artesão como território de resistência cultural

A Vila do Artesão é muito mais do que um espaço comercial. Ela é um território simbólico, onde saberes tradicionais, identidade cultural e economia criativa se encontram. Cada peça produzida ali carrega história, técnica e pertencimento. No entanto, assim como outros polos culturais urbanos, a Vila sente diretamente o impacto da sazonalidade.

No verão, o fluxo de visitantes diminui, as vendas caem e muitos artesãos precisam recorrer a estratégias alternativas para manter a renda. Alguns apostam nas redes sociais, outros reforçam encomendas sob demanda, enquanto há quem simplesmente atravesse o período com muita resiliência e poucos recursos de apoio institucional.

Essa realidade expõe um ponto central: a sustentabilidade econômica da cultura não pode depender apenas de datas festivas ou grandes eventos pontuais.

O desafio do verão e a lógica da sustentabilidade urbana

Pensar sustentabilidade é ir além do discurso ambiental. Envolve também sustentabilidade econômica, social e cultural. Em Campina Grande, ainda operamos muito sob a lógica de ciclos curtos, fortemente concentrados em grandes eventos, como o São João. Fora desses períodos, equipamentos culturais como a Vila do Artesão acabam ficando à margem das políticas de fomento contínuo.

O verão poderia ser encarado como um laboratório de inovação urbana. Em vez de aceitar o esvaziamento como algo natural, é possível criar estratégias que reposicionem a cidade como destino cultural, criativo e de experiência — mesmo fora do circuito litorâneo.

Como inovar? Caminhos possíveis para o poder público e empresários

Algumas ações são fundamentais para mudar esse cenário:

1. Programação cultural permanente no verão
A Vila do Artesão poderia ser o centro de uma agenda contínua de atividades: feiras temáticas, oficinas abertas, vivências criativas, apresentações musicais intimistas e experiências gastronômicas ligadas à cultura regional. O turista que passa por Campina Grande precisa encontrar motivos claros para permanecer.

2. Integração entre cultura, turismo e economia criativa
É essencial que a Vila esteja integrada aos roteiros turísticos oficiais da cidade. Parcerias com hotéis, restaurantes, aplicativos de mobilidade e agências de turismo podem criar circuitos culturais urbanos voltados ao visitante de passagem e ao público local que permanece na cidade.

3. Incentivo ao consumo local e criativo
Empresários podem atuar como aliados estratégicos, seja patrocinando ações culturais, seja incorporando o artesanato local em seus próprios espaços — hotéis, bares, cafeterias e centros comerciais. Isso fortalece a economia circular e mantém recursos girando dentro do território.

4. Comunicação estratégica e narrativa urbana
Campina Grande precisa contar melhor suas histórias no verão. A Vila do Artesão não pode ser comunicada apenas como um espaço de compras, mas como uma experiência cultural viva, que conecta passado, presente e futuro. Comunicação é estratégia de desenvolvimento.

Transformar o verão em oportunidade

A Vila do Artesão tem potencial para ser um dos principais símbolos de um novo modelo de cidade: mais criativa, sustentável e conectada com sua identidade. O verão, nesse contexto, deixa de ser apenas um período de baixa e passa a ser um convite à reinvenção.

Valorizar quem produz cultura o ano inteiro é uma decisão política, econômica e ética. Se Campina Grande deseja se afirmar como cidade criativa e sustentável, precisa olhar para seus territórios culturais com planejamento, investimento e visão de longo prazo — inclusive quando o calor aperta e a cidade parece mais vazia.

 

Vila do Artesão – Campina Grande (PB)

O que é
A Vila do Artesão é um dos principais espaços de valorização da cultura popular e da economia criativa de Campina Grande. O local reúne artesãos e artistas que produzem peças autorais inspiradas nas tradições nordestinas e na identidade cultural paraibana.

O que você encontra

  • Artesanato em madeira, couro, barro e fibras naturais
  • Bordados, rendas e peças têxteis
  • Artes visuais, xilogravuras e objetos decorativos
  • Produtos da economia criativa local
  • Gastronomia regional e espaços de convivência

Importância cultural e social
Mais do que um espaço comercial, a Vila do Artesão é um território de preservação dos saberes tradicionais, geração de renda e fortalecimento da identidade cultural campinense.

Sustentabilidade na prática
O espaço estimula o consumo consciente, a produção artesanal em pequena escala e a valorização do trabalho manual, contribuindo para uma economia criativa mais justa e conectada ao território.

Desafio atual
Durante o verão e o período de férias, a redução no fluxo de visitantes evidencia a necessidade de ações integradas entre poder público, setor privado e turismo cultural para manter a Vila ativa ao longo de todo o ano.

 

 

 

Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental. Coordenador de projetos de Educação Ambiental no portal Paraíba Cultural e no Q-Ideia – Design e Comunicação. Atua em ações integradas de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento territorial no Estado da Paraíba.

 

 

 

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