O que é Agrofloresta? E como ela pode ser aplicada na Caatinga paraibana
Por Sérgio Melo
A agrofloresta não é apenas um conceito técnico ou uma moda passageira no campo; ela representa uma mudança profunda no modo como humanos e ecossistemas podem coabitar, produzir alimentos e restaurar paisagens degradadas. Definida como um sistema sustentável de uso da terra que integra árvores, culturas agrícolas e, em algumas situações, animais, de forma a reproduzir as dinâmicas naturais dos ecossistemas, a agrofloresta potencializa serviços ambientais e produtivos simultaneamente.
O conceito e suas bases científicas
Originalmente cunhado no contexto do Centro Internacional de Pesquisa Agroflorestal (ICRAF), o termo agrofloresta surgiu para descrever práticas que combinam produção agrícola e manejo florestal de modo integrado, holístico e resiliênte frente as variações climáticas e às pressões antropogênicas. Diferentemente de um sistema agrícola convencional, que geralmente substitui a vegetação natural por cultivos monoespecíficos e altamente mecanizados, os sistemas agroflorestais (SAFs) buscam aumentar a biodiversidade, melhorar a qualidade do solo e sequestro de carbono, além de diversificar a produção de alimentos e renda.
Por que a agrofloresta importa na Caatinga?
O bioma Caatinga, predominante no interior da Paraíba, enfrenta desafios severos: solos com baixa matéria orgânica, erosão acelerada, uso predatório do fogo e monoculturas que fragilizam a capacidade produtiva e ecológica da paisagem. A adoção de SAFs introduz árvores e arbustos ao lado de plantas alimentares — um arranjo que aumenta a capacidade da terra de manter nutrientes essenciais e água, reduzir a erosão e promover resiliência às secas prolongadas típicas do semiárido.
Pesquisas científicas vêm demonstrando que, em comparação com sistemas tradicionais de uso da terra, a agrofloresta pode aumentar o estoque de carbono orgânico no solo em até 30 % ou mais, além de promover maiores teores de nitrogênio e outros atributos físico-químicos associados à fertilidade. Esses efeitos não apenas contribuem para a mitigação de gases de efeito estufa, mas também melhoram a capacidade produtiva em longo prazo.
Experiências e resultados positivos
No semiárido nordestino, projetos pioneiros como a Agrofloresta Paêbirú (em Sergipe) demonstram que é possível recriar paisagens produtivas que recuperam espécies endêmicas da Caatinga — como umbuzeiro, jucá e mandacaru — enquanto produzem alimentos e fitoterápicos para consumo local. Essa iniciativa também promove técnicas de conservação do solo, captação de água de chuva e manejo comunitário dos sistemas.
Outras experiências práticas, por sua vez, vêm sendo implementadas em instituições como o Instituto Federal Baiano – Campus Serrinha, onde unidades educativas de campo demonstram como sistemas agroflorestais podem ser integrados à realidade do semiárido com diversidade de espécies, inclusão de árvores xerófilas e culturas alimentares adaptadas ao clima local.
Dados científicos reforçam que esses sistemas agroflorestais não apenas restauram a qualidade do solo e aumentam a sua capacidade de retenção de água, mas também podem melhorar o desempenho econômico dos agricultores familiares, por meio da diversificação de produtos comercializáveis e da redução de dependência de insumos químicos.
A ciência por trás da prática
Pesquisadores brasileiros, como Rafael Gonçalves Tonucci e Renato Falconeres Vogado (entre outros colaboradores em estudos da Revista Brasileira de Ciência do Solo), vêm analisando os impactos dos sistemas agroflorestais no solo e nos estoques de carbono e nitrogênio na Caatinga, concluindo que a transição para esses sistemas pode resultar em melhorias mensuráveis nos atributos do solo e na sustentabilidade do uso da terra no semiárido.
Em escala mais ampla, revisões sistemáticas de evidências científicas mostram que, embora ainda desafiador em termos de difusão técnica e apoio institucional, 16 a 18 % dos estudos científicos sobre SAFs no Brasil já concentram-se em áreas do semiárido como a Caatinga, refletindo o crescente interesse de pesquisadores e comunidades em adaptar essas práticas ao contexto ecológico e social do Nordeste.
Reflexão
A agrofloresta na Caatinga não é uma promessa futurista, mas uma resposta prática e cientificamente amparada às crises ecológicas e produtivas que afetam o semiárido paraibano. Ao integrar árvores, arbustos e culturas alimentares em um arranjo produtivo sustentável, os SAFs restauram a vida do solo, capturam carbono, diversificam renda e fortalecem a resiliência das comunidades rurais.
Como já dizia Wendell Berry, pensador da sustentabilidade rural:
“A terra é aquilo que nos sustenta, e não aquilo que possuímos.”
Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental. Coordenador de projetos de Educação Ambiental no portal Paraíba Cultural e no Q-Ideia – Design e Comunicação. Atua em ações integradas de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento territorial no Estado da Paraíba.

