Francisco Leite Duarte transforma a seca de 1932 em fábula política sobre resistência no sertão
Por Sérgio Melo
A literatura paraibana ganhou, no dia 14 de agosto, uma nova obra dedicada a revisitar a memória do sertão. O escritor Francisco Leite Duarte lançou O sibito baleado na Livraria do Luiz, no Mag Shopping, em João Pessoa.
O romance utiliza a seca de 1932 como cenário para construir uma fábula política sobre desigualdade, autoritarismo e resistência. Para isso, mistura regionalismo, realismo mágico, humor e uma linguagem profundamente ligada ao universo nordestino. A obra foi publicada pela Faria e Silva e tem 220 páginas.
Embora eu não tenha acompanhado presencialmente o lançamento, considero importante registrar o acontecimento. Afinal, livros que revisitam a história regional ajudam a manter vivas experiências que não podem desaparecer da memória coletiva.
E, neste caso, há algo ainda mais interessante. Francisco Leite Duarte não retorna ao passado apenas para contar uma história sobre a seca. Ele utiliza esse passado para discutir problemas que continuam reconhecíveis no presente.
A seca de 1932 volta ao sertão pela imaginação
A narrativa está ambientada na Serra do Desterro, no alto sertão da Paraíba. Ali, homens e animais enfrentam uma seca que transforma a sobrevivência em disputa.
No núcleo humano estão personagens como Pedro Bicudo e Binga. Paralelamente, o autor cria uma sociedade de pássaros submetida ao poder do tirano Guiratinga.
A estrutura aproxima os dois universos. Enquanto os sertanejos sofrem com a fome e a opressão, as aves também enfrentam a concentração de recursos essenciais.
Guiratinga cobra das aves um imposto abusivo em sementes para permitir o acesso à água. A situação, então, transforma a sobrevivência em instrumento de dominação.
É nesse ambiente que surge Fubica, um pequeno sibito com uma perna e uma asa quebradas. O personagem passa de figura aparentemente frágil a líder de uma revolta.
A editora descreve a obra como uma narrativa em que homens e bichos lutam por poder, amor e sobrevivência.
Fubica transforma fragilidade em resistência
O título do romance nasce de uma expressão popular nordestina associada à figura do sujeito magro, franzino e resistente.
Fubica carrega exatamente essa simbologia.
Ele é pequeno. Está ferido. Parece, inicialmente, incapaz de enfrentar estruturas muito maiores que ele.
Entretanto, sua força nasce justamente dessa condição.
O que começa como um discurso para conquistar uma pretendente transforma-se em movimento coletivo. Aos poucos, Fubica reúne aliados e estabelece pactos improváveis.
Até besouros e rola-bostas entram na mobilização.
A escolha é divertida. Porém, também é política.
A fábula mostra que estruturas de poder podem parecer gigantes enquanto os indivíduos permanecem isolados. Quando esses indivíduos se organizam, entretanto, a relação muda.
O sertão aparece como território de memória e identidade
Para mim, um dos aspectos mais importantes do livro está na maneira como o sertão deixa de ser apenas cenário.
Ele passa a funcionar como personagem.
A seca, a paisagem, a linguagem e as relações sociais participam diretamente da narrativa. Assim, a obra recupera elementos reconhecíveis da cultura sertaneja sem transformar o Nordeste em simples cartão-postal.
Isso tem um significado especial para a literatura paraibana.
Durante décadas, a seca foi representada principalmente pela perspectiva da escassez. A fome, o abandono, a migração e a desigualdade formaram uma espécie de imaginário permanente sobre o sertão.
O sibito baleado retoma essa tradição, mas desloca o eixo da narrativa.
Aqui, os personagens não querem apenas escapar da seca.
Eles querem enfrentar as estruturas que transformam a escassez em instrumento de poder.
Entre “Vidas Secas” e “A Bagaceira”, uma nova leitura do regionalismo
O próprio autor aproxima o romance da tradição inaugurada pelo regionalismo de 1930.
A obra dialoga especialmente com referências como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e A Bagaceira, de José Américo de Almeida. Entretanto, Francisco Leite Duarte introduz outro elemento nessa tradição: o realismo mágico.
A escolha permite que humanos e animais compartilhem a mesma dimensão narrativa.
Com isso, a crítica social ganha uma camada simbólica.
O poder, a mentira, a fome e a resistência deixam de pertencer apenas aos personagens humanos. A natureza também participa do conflito.
Essa característica aproxima a obra de uma tradição literária que utiliza animais e elementos fantásticos para falar sobre a sociedade.
Porém, o autor mantém uma identidade própria. A linguagem permanece marcada pelo imaginário sertanejo e pela oralidade nordestina.
Uma história de ficção que nasce de experiências reais
A trajetória de Francisco Leite Duarte ajuda a compreender a força dessa aproximação entre memória e ficção.
Nascido na zona rural do alto sertão paraibano, na região de Uiraúna, o escritor é filho de agricultores analfabetos. Ainda criança, caminhava quilômetros para estudar.
Mais tarde, formou-se em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Também construiu carreira como auditor-fiscal da Receita Federal e professor universitário. A Universidade Estadual da Paraíba mantém seu nome entre os docentes da instituição.
Sua relação com a seca também ultrapassa a literatura.
Entre 1977 e 1979, trabalhou nas frentes emergenciais de combate à seca no Nordeste. Essa experiência contribuiu para a construção do ambiente social presente no romance.
Há, portanto, uma camada autobiográfica importante.
O escritor conhece o sertão não apenas pela literatura. Ele conhece suas distâncias, suas dificuldades e suas contradições.
A literatura também preserva aquilo que a história não pode esquecer
É justamente aqui que vejo a importância cultural do lançamento.
A seca de 1932 pertence à história do Nordeste. Porém, a história não sobrevive somente em documentos, estatísticas e registros oficiais.
Ela também permanece nas histórias familiares, nas narrativas populares, na literatura e nas imagens construídas por cada geração.
Quando um escritor retorna a esse período, ele cria uma nova possibilidade de leitura do passado.
E isso interessa diretamente à identidade regional.
A literatura não substitui a historiografia. Mas pode aproximar o leitor de experiências históricas que, muitas vezes, parecem distantes.
Nesse sentido, O sibito baleado transforma a memória da seca em matéria literária contemporânea.
O lançamento em João Pessoa amplia o espaço da literatura paraibana
A escolha da Livraria do Luiz para o lançamento também tem um significado simbólico.
Livrarias são espaços de circulação de ideias. São pontos de encontro entre escritores, leitores e diferentes gerações.
Levar uma obra de temática sertaneja para João Pessoa significa aproximar territórios que muitas vezes são apresentados como separados.
A capital e o sertão fazem parte da mesma história cultural.
E a literatura pode estabelecer essa ponte.
O lançamento ocorreu depois da participação do livro na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, ampliando a circulação da obra para além da Paraíba.
O romance também recebeu avaliações positivas de escritores como Santiago Nazarian e Pablo Casella, que assinam textos de apresentação na edição.
O pequeno sibito e a força de não se curvar
Há uma imagem particularmente poderosa na proposta do romance.
Um pássaro ferido decide enfrentar um tirano.
A metáfora é simples. Entretanto, carrega uma força enorme.
No sertão, onde a sobrevivência historicamente esteve associada à capacidade de resistir, Fubica representa aqueles que parecem pequenos diante das estruturas de poder.
Mas tamanho não determina coragem.
Nem determina capacidade de transformação.
Por isso, O sibito baleado pode ser lido como uma fábula sobre resistência. Também pode ser entendido como uma reflexão sobre memória, desigualdade e organização coletiva.
Acima de tudo, é uma obra que reafirma a capacidade da literatura nordestina de olhar para suas próprias raízes e produzir novas interpretações.
Francisco Leite Duarte amplia sua trajetória literária
Francisco Leite Duarte já publicou romances como A vovó é louca e O pequeno Davi, além da coletânea de contos Crimes de agosto e do livro de memórias Os longos olhos da espera. Também mantém atuação como colunista e professor.
Com O sibito baleado, sua produção literária retorna ao sertão.
Mas não retorna para repetir velhas imagens.
Retorna para perguntar o que ainda podemos aprender com elas.
E talvez seja essa a maior contribuição de uma obra como essa: lembrar que preservar a identidade regional não significa congelar o passado.
Significa mantê-lo vivo, permitindo que novas gerações possam reinterpretá-lo.
No caso de Francisco Leite Duarte, um pequeno pássaro ferido ganha asas justamente quando decide não aceitar a própria condição.
É uma imagem sertaneja.
É também uma imagem universal.
Ficha técnica
Livro: O sibito baleado
Autor: Francisco Leite Duarte
Editora: Faria e Silva
Gênero: Romance
Ano: 2026
Páginas: 220
ISBN: 9786560252141
Serviço do lançamento:
O lançamento ocorreu em 14 de agosto de 2026, na Livraria do Luiz, unidade do Mag Shopping, em João Pessoa.
Onde encontrar: A obra está disponível em catálogo comercial da editora e de livrarias.
Por Sérgio Melo
Jornalista e gestor ambiental. Paraíba Cultural.