Cinema Por Aí leva formação audiovisual gratuita a Monteiro
Por Sérgio Melo
Monteiro recebeu, entre os dias 10 e 13 de agosto de 2026, o Cinema Por Aí, laboratório itinerante que oferece formação audiovisual gratuita. A iniciativa levou quatro oficinas à cidade, com atividades de roteiro, produção, fotografia e som.
Realizado na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), o projeto reuniu jovens e adultos a partir dos 16 anos. Além disso, propôs uma experiência prática ligada às histórias, à cultura popular e à identidade de Monteiro. O projeto tem patrocínio master da Shell e apoio institucional da Prefeitura de Monteiro e da UEPB.
O cinema entrou em cena para ouvir as histórias de Monteiro
Durante quatro dias, os participantes conheceram diferentes etapas da produção cinematográfica. Cada oficina teve carga horária de 20 horas, dividida entre conteúdos teóricos e atividades práticas.
Foram oferecidas quatro formações: Roteiros e Processos Criativos, Produção Executiva e Direção de Produção, A Fotografia como Ferramenta de Discurso e O Som e a Linguagem Audiovisual.
Cada turma contou com 15 vagas gratuitas. Portanto, a proposta não era apenas ensinar técnicas cinematográficas.
O objetivo também era aproximar o audiovisual das pessoas que vivem o território. Nesse processo, histórias cotidianas podem ganhar novas possibilidades de representação.
No quarto dia, as oficinas se transformaram em um set de filmagem
A dinâmica ganhou outra dimensão no último dia da programação. Os participantes das quatro oficinas foram reunidos em um “set vivência”.
Na prática, roteiro, produção, fotografia e som passaram a funcionar de maneira integrada. Assim, os alunos puderam experimentar a rotina de uma equipe cinematográfica.
A atividade resultou na produção de um documentário experimental inspirado na cultura popular e nas histórias de Monteiro.
Esse aspecto me parece especialmente significativo. Quando uma comunidade aprende a contar a própria história, ela também passa a disputar a forma como essa história será vista.
E, no Cariri, essa dimensão ganha ainda mais força.
A cultura do Cariri encontra novas ferramentas para contar suas histórias
Monteiro ocupa posição importante no mapa cultural paraibano. A cidade está associada à música, à literatura, às tradições populares e à produção artística do Cariri.
Por isso, levar formação audiovisual ao município significa oferecer novas ferramentas para esse patrimônio cultural.
O cinema pode registrar uma manifestação cultural. Entretanto, também pode revelar personagens, paisagens e memórias que permanecem fora dos grandes circuitos de produção.
Nesse sentido, a câmera deixa de ser apenas um equipamento. Ela passa a funcionar como instrumento de memória e interpretação do território.

Cinema Por Aí aposta na descentralização da formação audiovisual
Segundo a coordenadora geral do projeto, a produtora e jornalista Wanessa Pimentel, idealizadora da Dáblio_3 Produções Culturais, a circulação busca ampliar o acesso à formação cinematográfica.
“Queremos compartilhar ferramentas, estimular novos olhares e mostrar que as histórias do interior também podem ocupar as telas e ser contadas por quem vive essas realidades.”
A proposta percorre cinco municípios nordestinos. Antes de chegar a Monteiro, o Cinema Por Aí passou por Água Branca, em Alagoas, e Betânia, em Pernambuco.
Depois da etapa paraibana, a caravana segue para Condado e Caruaru, também em Pernambuco.
Ao longo da circulação, a previsão é alcançar aproximadamente 300 participantes, realizar 400 horas-aula e produzir cinco curtas-metragens.
Cinco cidades, cinco experiências e uma mesma ideia: contar o território
Os filmes produzidos durante a circulação deverão integrar uma mostra aberta ao público em Caruaru, prevista para o segundo semestre de 2026.
A iniciativa cria, portanto, uma conexão entre diferentes territórios do Nordeste.
São comunidades distintas, mas que compartilham desafios semelhantes relacionados ao acesso à formação cultural e aos meios de produção audiovisual.
Mais do que formar profissionais, projetos desse tipo podem criar repertório. E repertório é fundamental para que novos realizadores encontrem caminhos próprios.
O apoio cultural amplia oportunidades para novos realizadores
Para Glauco Paiva, diretor de Comunicação e Marca da Shell Brasil, o apoio ao projeto está relacionado à ampliação do acesso à formação cultural.
Segundo ele, a iniciativa contribui para criar oportunidades para jovens e estimular novos talentos.
O patrocínio master da Shell integra, assim, uma estrutura que permite ao Cinema Por Aí circular por municípios fora dos principais centros de produção audiovisual.
Em Monteiro, a realização também contou com o apoio institucional da Prefeitura de Monteiro, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo, e da Universidade Estadual da Paraíba.

Quando a câmera chega ao interior, outras narrativas também ganham espaço
A passagem do Cinema Por Aí por Monteiro deixa uma questão importante para além das quatro oficinas.
Quem conta a história de um território?
Durante muito tempo, comunidades do interior foram retratadas principalmente por olhares externos. O resultado, muitas vezes, foi uma representação limitada de suas complexidades.
A formação audiovisual pode mudar essa lógica.
Quando jovens e adultos aprendem roteiro, fotografia, produção e som, passam a dominar ferramentas capazes de registrar suas próprias experiências.
No Cariri paraibano, isso significa aproximar tecnologia e tradição.
Significa também criar possibilidades para que a cultura popular dialogue com novas linguagens sem perder sua identidade.
Cinema, memória e território caminham juntos no Cariri
Como jornalista e gestor ambiental, vejo nessa experiência uma dimensão que ultrapassa a produção de um curta-metragem.
O território não é formado apenas por mapas, estradas e paisagens. Ele também é construído por memórias, sotaques, festas, músicas, personagens e histórias compartilhadas.
A cultura popular funciona como uma espécie de arquivo vivo.
Quando o audiovisual registra essas experiências, cria novas possibilidades de preservação e circulação da memória.
Isso vale para uma festa tradicional, uma história familiar ou uma paisagem da Caatinga. Tudo pode carregar informação sobre a relação entre as pessoas e o lugar onde vivem.
Por isso, iniciativas de formação culturais realizadas no interior têm importância estratégica.
Elas ajudam a democratizar não apenas o acesso ao cinema, mas também o direito de produzir imagens sobre o próprio território.
Cinema Por Aí deixa uma câmera apontada para o futuro
A passagem por Monteiro terminou em 13 de agosto. No entanto, o trabalho iniciado durante as oficinas ainda terá continuidade.
O curta produzido pelos participantes fará parte da mostra prevista para Caruaru. Assim, uma experiência construída no Cariri paraibano poderá encontrar novos públicos.
Esse é um dos aspectos mais interessantes da iniciativa.
O Cinema Por Aí não leva apenas equipamentos e professores para diferentes cidades. Leva ferramentas para que os próprios moradores possam transformar experiências em narrativa.
E talvez esteja aí o principal legado da circulação.
Quando uma câmera chega a um território, ela pode simplesmente registrar. Mas, quando as pessoas aprendem a operar essa câmera, escrever o roteiro e construir a narrativa, algo maior acontece.
O território passa a falar com a própria voz.
Serviço
Cinema Por Aí em Monteiro
Período: 10 a 13 de agosto de 2026
Local: Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Monteiro
Atividades: oficinas de roteiro, produção, fotografia e som
Carga horária: 20 horas por oficina
Vagas: 15 participantes por formação
Público: pessoas a partir dos 16 anos
Participação: gratuita
Experiência anterior: não era necessária
Informações: Instagram @cinema_por_ai