O Maior São João do Mundo para quem? O grito de socorro dos forrozeiros de Campina Grande

Enquanto a festa movimenta R$ 700 milhões, artistas locais denunciam cachês humilhantes e falta de espaço na própria terra; Fórum Forró de Raiz cobra gestão municipal.

 

Por Sérgio Melo | Paraíba Cultural

 

Caminhar pelo Parque do Povo é sentir o pulsar de uma economia que não para. Recentemente, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SEDE), revelou que a última edição do Maior São João do Mundo movimentou a impressionante cifra de R$ 700 milhões. Você sabia que, segundo a prefeitura o São João “não custa nada” aos cofres públicos municipais devido às parcerias, o artista da terra é tratado como figurante de luxo. Muito embora todo mundo sabe que há custos com limpeza, ornamentação da cidade, segurança, etc. Portanto, ainda que os custos da prefeitura tenham reduzido muito, eles não são nulos.

Hoje a festa conta com 100% de isenção fiscal por parte da lei de incentivo à Cultura e portanto as empresas patrocinadoras não tem custo algum com o patrocínio, uma vez que os valores destes patrocínios serão integralmente abatidos do imposto devido pelas empresas ao governo federal. No entanto, ao conversar com quem faz a poeira levantar, percebo uma contradição dolorosa: o lucro estratosférico da festa não chega à mão de quem sustenta o título de “Capital do Forró”.

 

A realidade invisível dos trios de forró e os cachês de R$ 850,00

É desolador ouvir o relato de mestres como Cordeiro, do Trio Mandacaru. Segundo ele, a desvalorização atingiu um nível crítico. Enquanto grandes palcos recebem investimentos pesados, os trios de forró sobrevivem com cachês que giram em torno de R$ 800 a R$ 850. Além disso, a precariedade é tamanha que, em muitas ocasiões, falta o básico: um copo d’água ou um lanche no camarim para quem toca horas a fio.

Consequentemente, essa situação gera uma revolta legítima. Para efeito de comparação, em estados vizinhos como Bahia, Pernambuco e Sergipe, grupos similares chegam a receber R$ 5 mil. Portanto, fica a pergunta: por que em Campina Grande, onde o São João “não custa nada” aos cofres públicos devido às parcerias, o artista da terra é tratado como figurante de luxo?

 

Fórum Forró de Raiz leva demandas ao Gabinete do Prefeito

Diante desse cenário de exclusão, estive acompanhando a movimentação do Fórum Forró de Raiz. Na manhã desta quinta-feira (09/04/26), uma comissão liderada por Joana Alves, coordenadora do Fórum Nacional, e Alfranque Amaral, reuniu-se com o chefe de gabinete do prefeito Bruno Cunha Lima, Waldenny Santana. O objetivo foi claro: garantir que o forró, reconhecido como patrimônio imaterial brasileiro, o processo de reconhecimento de registro da UNESCO esta em curso, seja tratado com a dignidade que o título exige.

Joana Alves reforçou que o diálogo é o primeiro passo para fortalecer a cultura local, mas destacou que é preciso ir além das palavras. Afinal, a valorização do artista não pode ser apenas um discurso de palanque. Da mesma forma, Alfranque Amaral pontuou que o forró deve ser valorizado o ano inteiro, e não apenas nos 30 dias de festa junina.

 

 

 

 

Poetas e artistas denunciam exclusão da grade oficial

O poeta Cidinho sintetizou um sentimento comum entre os talentos da Rainha da Borborema: a falta de oportunidade. É irônico notar que, justamente quando a cidade está lotada de turistas sedentos pela cultura autêntica, os artistas locais são escanteados. Em virtude da atual gestão priorizar atrações de outros gêneros, muitos compositores e instrumentistas de Campina Grande ficam sem espaço para apresentar seus trabalhos autorais.

Como resultado dessa pressão, o chefe de gabinete Waldenny Santana informou que a prefeitura buscará um ajuste imediato no valor dos cachês junto à empresa terceirizada que organiza o evento. A categoria, por sua vez, considera os atuais R$ 850 insuficientes e ofensivos, dada a responsabilidade social e cultural desses músicos.

 

O futuro da cultura: políticas permanentes além do Parque do Povo

Certamente, o ajuste do cachê é uma medida de urgência, mas não é a solução definitiva. Os artistas defendem a criação de políticas públicas que ocupem espaços como o Parque Evaldo Cruz ao longo de todo o ano. Em outras palavras, Campina Grande precisa de um calendário contínuo de apresentações.

Em suma, não podemos aceitar que a “engrenagem” de R$ 700 milhões continue a triturar a dignidade do forrozeiro. Como jornalista e produtor cultural desta terra, espero que os acordos firmados nesta reunião não fiquem apenas no papel. Afinal, uma cidade que esquece seus artistas está, gradualmente, apagando sua própria alma.

Para finalizar é sempre bom lembrar que se hoje a festa está sendo realizada com a parceria público privada e com recursos da ordem de 45 milhões, isso só possível graças ao Fórum Nacional do Forró que conseguiu fazer um trabalho em 14 estados e no distrito federal, conseguindo registrar as Matrizes Tradicionais do Forró em Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Justiça seja feita, é justamente este título, conquistado a partir do trabalho de Dona Joana Alves, Alfranque Amaral e todo Fórum Nacional do Forró que possibilitou o acesso facilitado a cifra tão significativa de 45 milhões para execução da festa, que dá um retorno de 700 milhões à cidade. Retorno este que corresponde a 40% da riqueza que circula na cidade em um ano.

 

Links e referências:

 

 

 

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