O concreto que esqueceu a alma: a resistência da identidade urbana frente ao “quadrado” genérico
Do luxo do Art Déco em Campina Grande às molduras naturais do Brejo: por que a arquitetura moderna insiste em ignorar a riqueza da nossa história e dos nossos materiais?
Por Sérgio Melo
Caminhar pelos centros históricos das nossas cidades nordestinas é, acima de tudo, um convite ao pensamento. É um exercício de olhar para o alto e perceber que, em algum momento da história, construir não era apenas empilhar tijolos, mas sim manifestar uma identidade. Infelizmente, o cenário atual nos entrega o oposto: uma arquitetura de linhas retas, frias e repetitivas que parecem ignorar o solo onde pisam e o sol que nos castiga. O conceito arquitetônico vigente se rendeu a um pragmatismo quadrado que anula o bem-estar em nome de uma estética vazia de humanidade.
A majestade dos centros históricos e o horizonte do Brejo
Diferente da monotonia das caixas de vidro atuais, nossos centros históricos foram projetados para serem descobertos. Em João Pessoa, o Centro Histórico é um museu a céu aberto que respira a transição do tempo, onde a arquitetura buscava trazer beleza e uma adaptação orgânica ao relevo. Já no Brejo paraibano, essa experiência se expande: a arquitetura não apenas ocupa o espaço, ela emoldura o olhar em 360 graus. Em cidades como Areia e Bananeiras, o casario colonial e as antigas construções rurais se integram à neblina e à vegetação, oferecendo um espetáculo visual que não se interrompe, seja para qual lado você decida olhar.
No coração de Campina Grande, somos surpreendidos por um dos maiores acervos de Art Déco do Brasil. As linhas, embora geométricas, possuem uma elegância e uma personalidade que o “quadrado” moderno jamais conseguirá replicar. O Art Déco campinense é o registro de uma era de ouro que valorizava a ornamentação. É um estilo que, assim como as ladeiras de pedra do Brejo, convida o espectador a refletir sobre a evolução da nossa sociedade.
A riqueza dos materiais e o sacrifício do bem-estar
O Brasil é detentor de uma variedade mineral e florestal invejável, mas a arquitetura contemporânea parece ter medo de usar a nossa terra. No passado, a riqueza dos materiais naturais — como o calcário, o barro e as madeiras de lei — conferia uma dignidade e um frescor térmico que hoje são substituídos por revestimentos sintéticos sem vida.
- A ditadura do ângulo reto: A obsessão por linhas retas facilita a construção, mas ignora a fluidez necessária para a ventilação natural.
- O abandono do clima: Nossos antepassados erguiam paredes grossas e beirais largos, enquanto a arquitetura atual confia no ar-condicionado para remediar projetos termicamente desastrosos.
- A perda da moldura natural: No Brejo, a disposição das cidades em altitude permite que a arquitetura funcione como uma moldura para a natureza, algo que os muros altos das capitais aniquilaram.

Resgatar o olhar para reconstruir o futuro
Portanto, olhar para os monumentos de Campina, João Pessoa e para o casario de Areia não é um exercício de nostalgia, mas uma aula de urbanismo e humanidade. A arquitetura nordestina sempre soube dialogar com a luz e com a sombra. Precisamos parar de aceitar o “quadrado” como a única resposta e voltar a exigir construções que tragam personalidade e respeitem nossa história.
Concluindo, se continuarmos a pavimentar nossas cidades com caixas sem alma, perderemos o vínculo com nossa própria essência. A arquitetura deve voltar a ser um abraço no clima, um convite ao olhar e, acima de tudo, um reflexo da riqueza cultural e material que o nosso estado tem de sobra para oferecer.
