Parque de Bodocongó: insegurança hídrica, abandono e falta de visão expõem a incompetência da gestão pública estadual

Por Sérgio Melo 

 

O Parque de Bodocongó, em Campina Grande, deveria ser hoje uma das principais referências de lazer, esporte, cultura e educação ambiental da Paraíba. Implantado em uma área estratégica, com diversos equipamentos esportivos e culturais e localizado no entorno do Açude de Bodocongó, o espaço acabou se transformando em um símbolo do descaso, da má gestão dos recursos públicos e da ausência de uma política ambiental séria por parte do Governo do Estado.

Falar em segurança hídrica e gestão ambiental na Paraíba passa, obrigatoriamente, pela realidade do Açude de Bodocongó e do parque que o circunda. Estudos técnicos produzidos no âmbito da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) comprovam a gravidade da situação ambiental do açude. O corpo hídrico apresenta elevados níveis de poluição, resultado do lançamento contínuo de esgotos domésticos e efluentes sem tratamento, acúmulo de matéria orgânica, proliferação excessiva de algas, redução do oxigênio dissolvido e comprometimento da fauna aquática — um claro quadro de eutrofização severa.

Mesmo diante desse diagnóstico técnico amplamente conhecido, a resposta do poder público estadual tem sido marcada pela superficialidade. Em vez de investir de forma estruturante na recuperação ambiental do açude e na gestão integrada do Parque de Bodocongó, o Estado apostou em obras de grande visibilidade e baixo resultado prático. Somadas, as etapas de implantação do parque ultrapassam R$ 68 milhões em investimentos públicos. O resultado, porém, é um espaço abandonado, malconservado, inseguro e cada vez menos utilizado pela população.

O Parque de Bodocongó dispõe de quadras esportivas, áreas de convivência, espaços para eventos culturais, pistas de caminhada e estruturas que poderiam estimular práticas saudáveis, atividades educativas e turismo urbano. No entanto, a ausência de manutenção, a falta de gestão permanente, o abandono dos equipamentos e a inexistência de políticas de uso e ocupação do espaço transformaram o parque em um problema urbano, e não em solução.

A população, que deveria se apropriar do espaço, evita frequentá-lo. Reportagens recentes mostram equipamentos deteriorados, áreas depredadas, insegurança e total ausência de ações contínuas do poder público. Trata-se de um prejuízo duplo: financeiro, pelo desperdício de recursos públicos, e social, pela perda de um espaço que deveria contribuir para qualidade de vida, saúde e bem-estar coletivo.

Esse cenário deixa claro que administrar parques públicos e áreas verdes vai muito além da estética. Não basta construir. É preciso gerir. Cidades brasileiras que compreenderam essa lógica — como Curitiba (PR), Sorocaba (SP) e Fortaleza (CE) — tratam parques urbanos como infraestrutura ambiental estratégica, integrando saneamento, recuperação de corpos hídricos, educação ambiental, segurança, manutenção permanente e participação comunitária.

No caso do Parque de Bodocongó, a gestão ambiental poderia oferecer caminhos concretos e eficazes. Um plano sério deveria incluir a recuperação ambiental do açude, controle das fontes de poluição, ampliação e fiscalização do saneamento, monitoramento contínuo da qualidade da água, vegetação das margens com espécies nativas, programas de educação ambiental, incentivo à pesquisa científica e uso do parque como espaço pedagógico, cultural e turístico. Tudo isso aliado a um modelo claro de governança, manutenção e uso social do espaço.

O que se observa, no entanto, é a omissão da Secretaria de Meio Ambiente do Estado e a falta de integração entre as políticas ambientais, urbanas e de saneamento. O Governo Estadual, ao ignorar a dimensão ambiental do problema, contribui diretamente para o agravamento da insegurança hídrica, para o desperdício de recursos públicos e para a deterioração de um patrimônio ambiental e urbano fundamental para Campina Grande.

O abandono do Parque de Bodocongó não é apenas um problema local. Ele compromete o futuro ambiental da região, agrava riscos sanitários, reduz serviços ecossistêmicos e consolida um modelo de gestão pública que prioriza obras de impacto visual em detrimento de soluções duradouras.

Diante desse cenário, é urgente que a população compreenda seu papel enquanto cidadã. Cobrar transparência, fiscalizar obras, exigir gestão ambiental responsável e denunciar irregularidades aos órgãos de controle e ao Ministério Público Federal são ações fundamentais. O silêncio diante do descaso custa caro — e, no caso do Parque de Bodocongó, esse custo recai diretamente sobre o meio ambiente, o dinheiro público e a qualidade de vida da população.

O Parque de Bodocongó precisa deixar de ser vitrine de promessas vazias e passar a ser tratado como o que realmente é: uma área estratégica para a segurança hídrica, ambiental, cultural e social de Campina Grande. Sem gestão, não há parque. Sem responsabilidade, não há futuro.

 

Sérgio Melo
Jornalista e Gestor Ambiental. Coordenador de projetos de Educação Ambiental no portal Paraíba Cultural e no Q-Ideia – Design e Comunicação. Atua em ações integradas de sustentabilidade, cultura e desenvolvimento territorial no Estado da Paraíba.

 

 

 

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